Hollywood é um distrito, uma região, da cidade de Los Angeles no estado de Califórnia, nos Estados Unidos. Aquele grande letreiro, famoso, foi instalado em 1923 e formava a palavra HOLLYWOODLAND para divulgar um conjunto habitacional. Vinte seis anos depois, em 1949, a Câmara de Comércio de Hollywood assinou um contrato com a cidade de Los Angeles para reparar e reconstruir o letreiro, mas sem o LAND.
Lá foram fundados, em sua maioria, por imigrantes judeus, os estúdios Paramount Pictures em 1912, Fox Film em 1915, Warner Bros em 1923, MGM em 1924, e RKO em 1928. Esses cinco estúdios formaram o oligopólio do sistema hollywoodiano de produção que detinha total controle sobre as etapas de criação dos filmes. Esse sistema funcionava como a indústria de produção automobilística mesmo, naquele sistema em que cada profissional fica responsável por uma parte dos produtos.
E foi assim que Hollywood se tornou símbolo do cinema estadunidense, inclusive lá na região é onde acontecem as premiações, as homenagens para os famosos que mais se destacam... tem a calçada da fama, museus, o Teatro Chinês que é onde tem a calçada com as marcas das mãos, pés, e assinatura de muita gente famosa. Inclusive a Xuxa já colocou a mãozinha no cimento. No Brasil nós não tivemos tudo isso, mas estávamos no caminho.
O significado do termo Hollywood não combina muito bem com o glamour do cinema, a sua origem se refere a um bosque (wood) de uma planta chamada azevinho (holly). Mas era só o nome mesmo, essa planta não existia, exatamente, naquele local. Já o complexo de estúdios de filmes do Brasil, apesar de aspirar o mesmo êxito estados-unidenses, tinha menos glamour ainda, pois se chamava Boca do Lixo.
A Boca do Lixo fica no centro da cidade de São Paulo, no bairro da Luz, em um quadrilátero que inclui a rua do Triunfo, a rua Vitória, e adjacências. Durante as décadas de 1920 e 1930, o local se tornou um polo cinematográfico quando empresas como a Paramount, a Fox e a MGM se instalaram na região devido a localização estratégica, já que ficava próxima às estações da Luz e Sorocabana.
Essas companhias atraíram distribuidoras, fábricas de equipamentos especializados, serviços de manutenção técnica e outras empresas do ramo cinematográfico para as redondezas. Enfim, um mar de empresas do ramo cinematográfico se instalou no local e a cena de homens pilotando carroças carregadas de latas de filmes pelas vias públicas se tornou comum.
O nome Boca do Lixo foi dada pela imprensa policial nos anos de 1940, porque lá era um ponto de alta circulação de pessoas marginalizadas, bandidos, prostitutas... que antes atuavam mais no bairro do Bom Retiro, mas foram expulsos por violentas ações da política no início dos anos 1950, essas pessoas migraram para o bairro da Luz, passando a conviver simultaneamente com os principais atores e atrizes que figuraram na história do cinema nacional. Então, com a concentração das produções cinematográficas que aconteceu naquela localidade em meados dos anos de 1960, Boca do Lixo passou ser a ser referência também do polo de cinema.
Entre o fim dos anos de 1960 e o começo dos anos de 1980, a Boca do Lixo se tornou um reduto do cinema INDEPENDENTE, desvinculado dos incentivos governamentais. Na época, surgiu o movimento do Cinema Novo, nos anos 1970, que produzia filmes com incentivo estatal pela Embrafilme, uma empresa que produzia e distribuía filmes brasileiros. Mas a Boca do Lixo era atraente, dava retorno, então surgiam investidores dos mais distintos ramos para colocar dinheiro nas produções e, por essa razão, foram criadas muitas produtoras pequenas também que só faziam um filme.
No ano de 1975, Minami Keize, um dos responsáveis pela introdução do estilo mangá no Brasil, era formado em Desenho e em Jornalismo e fundou a revista Cinema Em Close-Up que desde seus primeiros números obteve sucesso no meio cinematográfico e se estabeleceu como uma das principais publicações de cinema da época.
O objetivo de Minami Keize era conquistar espaço no meio cinematográfico e divulgar o cinema brasileiro, sobretudo os que eram feitos na Boca do Lixo. Entre as suas publicações estavam fotos de atrizes da Boca, notícias sobre as novas produções, artigos críticos, entrevistas e espaço para cartas de leitores e técnicos do meio cinematográfico. A revista alcançou a vendagem média de trinta mil exemplares, o que contribuiu para uma criação de identidade da Boca do Lixo e é considerada um dos símbolos do cinema nacional da época.
Outra figura importante para a Boca do Lixo foi Dick Danello, um italiano naturalizado brasileiro, que compôs dezenas de trilhas sonoras para vários filmes, além de atuar em alguns deles também. Dick Danello teve canções em telenovelas da Globo fez muito sucesso no movimento Jovem Guarda, ele fundou a gravadora Central Park Records, pela qual lançou vários nomes de sucesso na época.
Muitos cineastas passaram pela Boca do Lixo, mas apesar do desfile de grandes profissionais e atores famosos, a produção ficou caracterizada pelos filmes baratos e que tinham forte apelo sexual. Os profissionais que frequentavam a região aprenderam a fazer cinema barato, a pornochanchada, que contribuiu para o florescimento e a expansão do polo de cinema. Tinha comédias, dramas, policiais, faroestes, ação, kung fu, terror... mas o erotismo estava sempre presente. Vários produtores, dentre os quais David Cardoso era um deles, ficaram milionários com esse tipo de cinema.
Os críticos não gostavam muito das produções da Boca do Lixo, mas teve exceções também, e alguns títulos tiveram sucesso de bilheteria como A Viúva Virgem, de Pedro Carlos Rovai. O Bandido da Luz Vermelha é outro filme que ficou bem conhecido, foi inspirado nos crimes do famoso assaltante João Acácio Pereira da Costa. Esse período fértil de produção durou até o final dos 80, a Boca do Lixo representava em média 80% dos lançamentos brasileiros. Dizem que foi lá que nasceram os famosos testes de sofá, tinha mãe que levava filha para conseguir um papel nos filmes.
A qualidade das produções da Boca do Lixo era questionável, não era sem razão que os críticos preferiam os filmes da EMBRAFILMES, porque grande parte dos filmes eram chanchadas, depois, os estúdios cederam a pornochanchadas, e nos últimos anos apelaram para o pornô e erótico, e teve até filmes adultos com animais. O Zé do Caixão disse em uma entrevista que ele foi o primeiro a produzir esse tipo de material. A produtora e distribuidora Cinedistri Ltda., que se instalou na região em 1949, foi o único estúdio brasileiro que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, pelo O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte.
Em 1990, Fernando Collor de Melo assumiu a presidência e reduziu drasticamente os incentivos destinados à sétima arte, contribuindo para a morte da Boca do Lixo. Curiosamente, naquele ano, Silvio de Abreu que estava escrevendo Rainha da Sucata teve uma minissérie que foi produzida chamada Boca Do Lixo. Ele tinha escrito anteriormente e apresentado para a direção da Globo com a intenção de provar que podia escrever algo que não fosse comédia. A história é sobre uma atriz que ascendeu na carreira com as pornochanchadas, mas não encontrou espaço na TV, ou em outros meios, depois que a indústria cinematográfica se retraiu.
Em 2010, estreou o filme Boca, dirigido por Flavio Frederico, uma cinebiografia baseada na vida de Hiroito de Moraes Joanides, interpretado por Daniel de Oliveira. O longa retrata a transformação de um jovem de classe média em um dos criminosos mais procurados na região boêmia da Boca do Lixo em São Paulo durante os anos 50 e 60, após o assassinato de seu pai.
Com a falência do cinema nacional, nos anos 1990, parte da área da Boca do Lixo se converteu na Cracolândia e se tornou uma das regiões mais degradadas de São Paulo. Só a partir de 2005 é que a prefeitura de São Paulo começou a intervir neste espaço mais firme, aumentando o policiamento e fechando hotéis e bares ligados ao tráfico de drogas e a prostituição.
Em 2003, Cariolano Rodrigues Mineiro, que trabalhou durante muitos anos na Boca do Lixo com o nome de Rodrigo Montana, era proprietário da Montana Cinematográfica e criou a Associação São Paulo a Cidade e o Cinema para preservar a memória da indústria cinematográfica. Seu projeto mais ambicioso era fazer o calçadão da Broadway Paulistana, com estátuas, chafariz, placas com nomes importantes do cinema, museu, biblioteca, sala de exibição… Mas, ele faleceu em 2012 sem ver seu sonho se tornar realidade.
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