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Vamp

A melhor novela de 1991 tinha mortos vivos como protagonistas que não tinham problemas em sair ao sol, mas dormiam em caixões, soltavam raios pelas mãos e choravam sangue. Era terrível, era chocante, era Vamp. O folhetim que passava na faixa das 19h na Globo roubou todas as cenas com um romance de vampiros que foi pensado para ser sério, mas diante das dificuldades técnicas e do resultado cômico dos efeitos especiais o autor resolveu chutar o balde e zoar a própria história. Deu muito certo.

Antônio Calmon foi o autor da bem-sucedida Top Model, em 1989, e teve a ideia de criar uma novela sobre vampiros durante uma viagem a Los Angeles com o diretor Daniel Filho. Aliás, as duas novelas têm muita coisa em comum, inclusive boa parte do elenco é o mesmo. Ele disse que a proposta foi aceita de imediato e se inspriou em várias produções hollywoodianas para criar os núcleos da história como A Noviça Rebelde e Sete Mulheres para Sete Irmãos que foram a base para o arco da família Rocha. Além de da comédia A Dança dos Vampiros, O Poderoso Chefão e obviamente Drácula de Bran Stoker.

Vamp estreou no dia 15 de julho de 1991, no horário das 19h, na TV Globo. Foi escrita por Antônio Calmon, com colaboração de Vinícius Vianna, Lílian Garcia e Tiago Santiago o autor de Os Mutantes na Record, A direção geral ficou a cargo de Jorge Fernando e contou com Cláudia Ohana, Ney Latorraca, Reginaldo Faria, Joana Fomm, Fábio Assunção, Nuno Leal Maia, Patrícya Travassos, Otávio Augusto, Guilherme Leme, Vera Holtz e Marcos Frota nos papéis principais.

A história se passa em Armação dos Anjos, cidade fictícia do litoral do estado do Rio de Janeiro, onde o capitão reformado Jonas Rocha, viúvo com seis filhos, casa-se com a historiadora Carmem Maura, também viúva e com seis filhos. A vida deles muda totalmente com a chegada de Natasha, uma cantora de rock que vendeu sua alma para brilhar na carreira, ao terrível conde Vladymir Polanski, o Vlad chefe dos vampiros. Pois, em encarnações passadas Natasha era Eugênia, o amor de Vlad, que preferiu ficar com Rocha, a outra vida do capitão Jonas.

A única forma de Natasha se livrar de sua maldição é encontrar a Cruz de São Sebastião para destruir Vlad. Razão pela qual ela foi parar em Armação dos Anjos, é onde a cruz está escondida e deve ser manejada por um homem chamado Rocha. Além da batalha dos vampiros, tem o caso do assaltante Jurandir que se esconde na cidade e se disfarça de padre para fugir do Cachorrão, um líder de criminosos.

A novela teve várias filmagens na cidade de Armação dos Búzios, Região dos Lagos no estado do Rio de Janeiro, e a cidade fictícia Armação dos Anjos (1) foi criada no terreno onde estava em construção o PROJAC, dividindo espaço com Vila Feliz da novela Felicidade (2) e a cidade de São Paulo dos Anos 20 da novela Salomé (3).

A última cena de cada capítulo virava uma arte em referência aos quadrinhos, a ideia foi do diretor Jorge Fernando e o desenho era feito pelo desenhista Roger Mello. Aliás, as Histórias em Quadrinhos também foram referências do figurinista Lessa de Lacerda, que usou gibis dos Vingadores para criar algumas das peças da personagem Natasha.

A novela Vamp foi um dos maiores desafios da emissora na época, porque não tinha os recursos necessários para fazer os efeitos especiais que a trama exigia, razão pela qual Antônio Calmon quis escrever O Beijo do Vampiro em 2002, quando podia usar os efeitos que não pode em 1991. Segundo Jorge Fernando, muitos truques eram feitos de forma amadora durante as gravações mesmo, se tivesse que fazer desaparecer ou aparecer alguém ou alguma coisa, pedia para os atores ficarem congelados para fazer as alterações no estúdio e depois dava sequência à cena. E em algumas vezes teve que usar artefatos explosivos de verdade. Ainda assim, constantamente os personagens eram transformados em cães, morcegos e ratos.

Diante das dificuldades técnicas, Antônio Calmon optou por seguir uma linha mais cômica. Em uma das cenas, o Conde Vlad vai a um cemitério em noite de lua cheia para ressuscitar seus companheiros que haviam sido destruídos pelas forças do bem. Ele evoca os mortos-vivos de Armação dos Anjos para formar um exército recriando o vídeo e a coreografia da música Thriller, de Michael Jackson.

A vinheta mostrava um grupo seguindo os rastros de um vampiro que se transformava em um cachorro e atacava uma moça convertendo-a em vampira também, com a música Noite Preta de Vange Leonel ao fundo, além dessa, outras treze faixas fizeram parte da trilha sonora nacional que tinha a atriz Claudia Ohana na capa, inclusive um dos maiores hits da novela foi em sua voz, Sympathy for the Devil, um dos clássicos da banda Rolling Stones foi convertido no maior hit de Natasha. A música fez tanto sucesso que entrou na lista das mais pedidas nas rádios e a atriz participou de alguns programas de televisão para cantar o tema.

Outra faixa que fez sucesso foi Grunir, de Orlando Moraes, e um trecho instrumental foi usado na vinheta dos intervalos da novela. Teve até Vinny, muito antes de pedir para a Heloisa mexer a cadeira ele fazia parte do grupo Hay Kay, a música Segredos na trilha da novela.

Evandro Mesquita, presente na trama como Simão, teve uma de suas músicas do seu álbum Almanaque Sexual dos Eletrodomésticos e dos Outros Animais, a Chacal Blues como tema de seu personagem.

Outra faixa que tem história é Suga Suga de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Segundo Avelar Love, Mariozinho Rocha, o responsável pelas trilhas das novelas da Globo, pediu para um dos rapazes do grupo uma música para a novela, mas ele não entendeu bem do que se tratava e produziram a música O Monstro, mas quando apresentaram para a gravadora, não servia, então tiveram basicamente um fim de semana para compor o novo tema que foi incluída no disco da novela no último prazo.

E a música Patinho Feio na voz de Angel Mattos, segundo Mariozinho Rocha, na época as Paquitas estavam em alta e ele queria uma música na voz delas na trilha da novela, então deu a letra para Marlene Mattos, mas ela devolveu a gravação na voz de sua irmã, alegando que as meninas não tinham tempo para gravar.

Curiosamente a música foi tema de Jade, personagem de Luciana Vendramini, aquela que pensa até hoje que foi Paquita, mas só fez o teste. É ela quem está na capa da trilha sonora internacional, cujo álbum tem 14 faixas. Dentre as mais lembradas estão I Remember You de Skid Row, Love Hurts de Cher, What a Wonderful World de Louis Armstrong, It Ain't Over ‘Til It's Over de Lenny Kravitz, Wicked Game de Chris Isaak, e, Boy, de Deborah Blando.

Déborah Blando foi agenciada pelo mesmo empresário de Cindy Lauper e Boy, o seu primeiro single, foi destaque nas rádios estados-unidesnse e europeias, além de integrar uma famosa campanha publicitária da Coca-Cola, a Diet Coke, nos Estados Unidos.

E ainda teve um terceiro álbum, o disco Rádio Corsário - O Som da Galera Vamp, com 15 faixas, mesclando canções brasileiras e internacionais. Dentre elas tem Kid Abelha, Supla e Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, na voz de Cláudia Ohana, que foi o segundo hit de Natasha na novela.

A Globo perdeu uma grande oportunidade de lançar um álbum completo da Natasha porque só na novela ela teve dois hits, Sympathy for the Devil e Quero Que Vá Tudo Para o Inferno que estão nos álbuns da trilha sonora da novela, além dela ter cantado Don't Let the Sun Go Down on Me de Elton John, e Doce Vampiro de Rita Lee, que até gravou uma participação na novela.

E teve uma quinta música, foi a primeira, logo no começo da novela, Sadeness, do grupo Enigma, quando Natasha faz uma performance na Praça de São Marcos em Veneza, em uma das cenas mais icônicas da novela, mas que virou caso de polícia no país. A música foi considerada uma ofensa religiosa pelas autoridades locais e desaprovada pela Igreja Católica por misturar cantos gregorianos tradicionais com batidas sensuais e letras que remetiam ao Marquês de Sade, então, mesmo com autorização para gravar no local a polícia interrompeu as gravações.

Sadeness não entrou na trilha sonora de Vamp, mas entrou na trilha de O Dono do Mundo que passava simultaneamente e que tinha menos audiência. Vamp era a melhor novela da época e isso se refletiu no Ibope, enquanto alcançou uma média de 50 pontos, a novela das 6, Salomé, ficou com 31 e, depois a sua substituta, Felicidade, ficou com 38, e a novela das oito, O Dono do Mundo, ficou com 48.

Vamp foi reprisada na Sessão Aventura, no horário das 16h15, de 4 de janeiro a 2 de julho de 1993, em 130 capítulos, tendo sido a última novela reapresentada na faixa, e foi reprisada na íntegra pelo Viva de 11 de abril a 15 de dezembro de 2011. Em fevereiro de 2016 foi lançada em DVD pela Globo Marcas, e em 1 de março de 2021, foi disponibilizada na íntegra pelo Globoplay através do Projeto Resgate.


Curiosidades

Victor Fasano foi o primeiro nome considerado para Vlad, mas o diretor resolveu apostar em Ney Latorraca, mesmo o ator dizendo que só gravaria 9 capítulos porque estava em cartaz com a peça O Mistériro de Irma Vap. No entanto, depois de ver o sucesso da novela ele não teve dúvidas em continuar, porém, pediu para sair da trama ao ser advertido para deixar de improvisar e não sair do roteiro. Disse que ficou 4 dias fora e o chamaram de volta, dando total liberdade na atuação.

O papel da vampira Natasha, a protagonista, tinha sido cogitado para Débora Bloch e foi oferecido para a cantora Paula Toller, vocalista do Kid Abelha. No entanto, Débora Bloch não cantava e Paula Toller recusou o convite. Assim, o papel foi parar nas mãos de Claudia Ohana. Outro artista que recusou papel na novela foi o Paquito Alexandre Canhoni, ele deixou o grupo em 1991, e preferiu investir em sua carreira musical.

A atriz Cleyde Yáconis, que interpretou a personagem Virgínia, já tinha feito uma novela de vampiros. Ela esteve no elenco de Um Homem Muito Especial, na Band, além da sua versão original da Tupi, Drácula -  Uma História de Amor, que foi cancelada com apenas 4 capítulos feitos.

Mari Matoso, personagem de Patrícia Travassos, era uma ex-atriz de pornochanchada, e seu visual deveria remeter aos anos 70. Para chegar ao penteado perfeito, a produção improvisou com um canudo de papel higiênico para deixar o rabo de cavalo mais evidente. Outro detalhe de seu personagem é que quando se transformava em vampira ela usava óculos escuros, isso porque os vampiros tinham os olhos brancos, mas as lentes estavam lhe causando irritação.

A razão do personagem Matoso ter só uma presa é porque o ator Otávio Augusto não conseguia falar bem com a prótese de presas, mas conseguia se usasse só uma.

Em 2017, a novela foi adaptada para os palcos pela Aventura Entretenimento com os mesmos protagonistas no palco: Ney Latorraca e Cláudia Ohana. O musical estreou em 17 de março no Teatro Riachuelo Rio. O musical ganhou uma nova personagem: Madrácula, a mãe de Vlad, além de ganhar novas músicas e outro final.

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