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Vinhetas de novelas sem computação gráfica

Além de uma boa história com um bom roteiro, um elenco de bons atores e boa direção, tem um fator a mais que contribui bastante para uma novela ser marcante, a sua vinheta de abertura. E hoje em dia os diretores têm acesso a programas de computador e recursos técnicos, como a Inteligência Artificial, que permitem fazer qualquer coisa. Basta imaginar para que tudo apareça perfeito nas telas da TV e não há limites para a imaginação.

Mas nem sempre foi assim, hoje vamos relembrar algumas aberturas memoráveis de novelas que tiveram acima de tudo, criatividade. Aliás, mesmo com todos os recursos disponíveis, se falta a criatividade sobra desperdício.

As vezes acontece de uma novela ser boa e a vinheta de abertura mais ou menos, ou ao contrário, a abertura ser muito boa e a novela de gosto duvidável. O casamento perfeito é quando a novela é boa e a vinheta é memorável como foi o caso de Top Model, de 1989, que mostrava modelos desfilando em uma passarela muito louca.

A novela era boa, a música tema casou perfeitamente com a vinheta que foi inspirada em uma obra do artista Escher e o resultado ficou incrível.

Outra novela da década de 80 também, que assim como Top Model só mostrou modelos na abertura, foi Brega & Chique, mas essa sofreu o mínimo de intervenções de computação e isso é o que eu mais gosto nas vinhetas. Nesse caso, acho, foi usado chroma key, o que fica evidente na hora em que aparece o modelo Vinícius Manne, nu, como dizia a canção tema da abertura, com a mão no bolso, se tivesse bolso.

Uma boa ideia somado a um bom trabalho fazendo uso dos recursos de computação não tem problema, mas pense que na era pré-computador os diretores e criadores que trabalhavam na TV fizeram coisas incríveis utilizando os mais variados recursos, construindo estruturas que ocupavam áreas muito grandes para fazer as gravações, e depois que o computador já era acessível também tiveram trabalhos excelentes, mas quando essa intervenção computadorizada é mínima, eu adoro. 

Em 1994 estreou a novela Pátria Minha. A abertura não é lá grande coisa, é um labirinto por onde circulam pessoas por todos os lados, uma delas é a atriz Taís Araújo que na época era modelo, e todas as pessoas se encontram no centro formando a bandeira do Brasil. Tem efeitos especiais, mas muito pouco e o legal é que o labirinto foi construído de verdade. Pelo menos parte dele, pois boa parte do que aparece na televisão é maquete, mas mesmo a maquete já tem um tamanho considerável.

Na novela Deus Nos Acuda que estreou em 1992, a vinheta de abertura fazia alusão ao escândalo de corrupção que era manchete nas principais revistas e jornais do país. Para criar o mar de lama que tanto era mencionado nas manchetes a produção criou um ambiente onde acontecia uma festa da alta sociedade, com homens e mulheres bem vestidos, risadas, insinuações sexuais e bebida. Aos poucos, o ambiente era inundado por lama, que submergia todos os convidados sem se importar com o que estava acontecendo.

A TV é uma grande fábrica de ilusão, então, a lama não invadiu a sala, foi a sala que invadiu a lama que não era lama. O material utilizado era uma mistura de isopor ralado, tinta preta, anilina e álcool, o que dava uma aparência mais próxima de pixe. O ambiente onde tudo acontecia foi construído nos antigos estúdios da Globo em Guaratiba, bairro do Rio de Janeiro, a sala da festa era uma gaiola suspensa sobre uma piscina, com seis metros por oito e chão de arame vazado, que, pendurada por um guindaste, ia descendo sobre a piscina até que os figurantes ficassem quase encobertos completamente.

A sequência durava pouco mais de um minuto, mas foi preciso oito dias de gravação porque cada descida da gaiola na piscina durava 17 segundos e a cena só podia ser rodada uma vez ao dia, as roupas dos figurantes tinham quer ser lavadas depois de cada gravação. E tinha cinco câmeras para registrar tudo, três estavam presas nas paredes do cenário, uma no teto registrando a cena de cima para baixo, e outra sobre uma plataforma de isopor que passeava entre os convidados da festa. 

Depois, foram usadas miniaturas de carros e helicópteros na cena em que a lama entra pelo ralo no mapa do país. Essa parte tem efeitos, ou melhor, montagem, de sobreposição de imagens, e com a qualidade dos vídeos de hoje é possível ver as imperfeições que a televisão escondia.

A abertura da novela Sassaricando não deveria agradar uma criança porque é uma insinuação de orgia, mas como eu não entendia nada, amava. Para mim era só uma festinha debaixo dos panos, e era uma festinha debaixo dos panos, mas não inocente como eu, na época. Me diga se você que passou por aqueles anos nunca brincou de reproduzir a vinheta com um lençol, ou pelo menos nunca teve vontade.

Algumas cenas dão até uma certa agonia, por exemplo a mão segurando a garrafa que, aliás, é a cena mais elaborada da vinheta. Imagino que tenha dado muito trabalho e gostaria muito de saber como foi feito. Não encontrei o making-of da produção, mas penso que essa cena tenha sido feita meio stop motion, aquela técnica de fotografar quadro por quadro. Nesse caso para manter o formato do braço e da garrafa sempre bem detalhados.

Em 1985 passou no horário das 19h, na TV Globo, a novela Ti Ti Ti. A história é sobre a disputa de dois costureiros, o Ariclenes Almeida vivido pelo saudoso Luis Gustavo e o André Espina vivido por Reginaldo Faria, e a vinheta faz uma alusão a rivalidade entre os dois mostrando tesouras, agulhas e fitas métricas brigando entre si. Não teve nada de computação gráfica, foi feito tudo manualmente. A cena em que os lápis rabiscam o desenho do adversário foi feita de cabeça para baixo com uso de ímãs para fazer o movimento dos lápis. O resultado é impressionante.

A música tema foi composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho, mas a Globo preferiu colocar na voz da banda Metrô, já que Rita dominava as aberturas das novelas da emissora, até então já tinham sido oito com sua voz e só naquela década foram três. Mas em 2010 a novela ganhou um remake e a vinheta foi refeita, toda computadorizada, com a voz da Rita Lee.

E para finalizar, a abertura da novela O Salvador Da Pátria, de 1989, mostrava várias paisagens e delas brotavam objetos e móveis. Hoje em dia esse efeito poderia ser produzido facilmente em computador, mas na época a produção foi manual. Os objetos que brotam das imagens foram mimetizados ao quadro do fundo, ou seja, estavam lá o tempo todo, só eram revelados quando a câmera se movia. E, aliás, não era a câmera que se movia, era o cenário.

A câmera ficava fixa e o cenário girava apoiado em uma base. Isso foi pensado para que o movimento fosse fluído, sem oscilações. Teve uso de chormakey e sobreposição de imagens para colocar o trator e o modelo que fazia o papel do personagem Sassá Mutema caminhando, inclusive a parte do trator dá para perceber a oscilação da câmera que Hans donner não queria no efeito dos objetos saindo dos quadros.

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