O Guarani é uma das obras mais conhecidas da nossa literatura, que foi transformada em ópera no exterior, cuja música se converteu em um hino nacional e ganhou várias adaptações para o cinema, além da TV, tendo em uma delas uma estrela internacional da sétima arte como diretora.
O romance O Guarani, originalmente escrito com y, que tem como autor José de Alencar, estreou como folhetim no jornal impresso Diário do Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1857. E no fim daquele ano foi publicado como livro com algumas alterações, só as necessárias para adaptar a trama ao formato disponibilizado nas livrarias.
Em 1870, 13 anos depois do lançamento do livro, Carlos Gomes que já morava na Itália há sete anos, compôs a ópera O Guarani. É aquela música instrumental usada na abertura da Voz do Brasil, o noticiário em cadeia nacional nas rádios, às 19h.
O Guarani é considerado a obra mais adaptada da história do cinema brasileiro, a primeira aconteceu em 1908, só 13 anos da criação do cinema, que foi em 1895. E a última adaptação, até a edição deste vídeo, aconteceu em 1996, quando o cinema tinha recém completado 100 anos de existência. O romance é apontado também como um dos livros brasileiros que mais tiveram adaptações em histórias em quadrinhos.
Em relação aos filmes, a maioria das produções pertence à era do cinema mudo, mas já na primeira adaptação o filme era dublado ao vivo. Os chamados filmes cantantes duraram de 1908 a 1912, duraram pouco tempo porque os atores, cantores líricos ou os próprios realizadores dos filmes ficavam escondidos atrás da tela de projeção e tinham que sincrozinar o texto, os sons, com a fita do filme, e era desgastante porque tinham que fazer isso em todas as sessões e se um ator errasse a fala, perdesse o tempo, comprometia o resto.
Apesar que naquela época os flmes eram curtos, os rolos de filme permitiam uma projeção de 15 minutos mais ou menos. Mas foi também nesse mesmo período da história do cinema que começaram a surgir as longa metragens que chegavam a 40 minutos. Então, as pessoas pagavam para entrar no cinema e viam vários filmes.
Os principais fatos que articulam a história de O Guarani são: a devoção e fidelidade de Peri, represetado por Marcio Garcia no filme de 1996, por Cecília de Mariz, personagem de Tatiana Issa. Ela é filha de Dona Laureana, vivida por Imara Reis, e de Dom Antonio, interpretado por Herson Capri. Ele tem um filho chamado D. Diogo, paple de Taimur Aimara, e uma filha com uma indígena que a cria como sobrinha, a Isabel, interpretada por Gloria Pires.
A Isabel acena para o núcleo dos vilões, mas é apenas uma sofredora, ela é densa, melancólica, e sente inveja dos privilégios que Ceci tem na família, além de amar Alvaro, personagem de Marco Ricca, que é um dos homens mais fieis de Dom Antonio, e é apaixonado por Ceci.
Peri faz parte da nação dos Goitacás, um povo que ficou conhecido por ser um dos mais ferozes com os quais os europeus tiveram contato na América. Eram guerreiros e hostis aos colonizadores e, segundo os registros históricos, eram invencíveis. Tinham porte atlético, corriam e nadavam muito tempo e como os europeus não conseguiram domina-los, exterminaram esse grupo deixando pertences deles infectados com o vírus da gripe ao alcance dos indígenas. Como não tinham anticorpus, o vírus se propagou e a população foi exterminada.
A aproximação de Peri com a fortaleza colonial acontece após ele salvar a vida de Ceci. No livro, a jovem estava prestes a ser esmagada por uma enorme pedra que rolava de um penhasco, e ele a salvou. No filme, ele a encontrou desmaiada no chão e não se sabe o porquê.
Existe outra população indígena retratada no filme, que são os Aimorés que, segundo José de Alencar, era um povo bárbaro, vingativo e antropófago. Entenda-se canibal. Eles cercam a casa de Dom Antônio para vingar a morte acidental de uma indígena. O incidente foi provocado por Diogo, o irmão de Ceci.
O vilão mesmo é o Loredano, interpretado por José de Abreu, um frade italiano que abondonou a igreja e lidera a rebelião dos mercenários aventureiros para roubar a fortuna de Dom Antônio e raptar Ceci. Ele é condenado a fogueira.
Álvaro se apaixona por Isabel, mas como tinha prometido ser o marido de Ceci não pode admitir nenhum afeto pela moça para não ser julgado traidor. Quando se machuca na batalha contra os aimorés, ela opta por morrer junto ao seu corpo. Dom Antonio dá uma bebida para Ceci adormecer e não sofrer durante a iminete explosão que está preste a provocar para não cair nas mãos dos indígenas, mas Peri intervém e aceita ser batizado cristão para salva-la.
No livro, Peri e Ceci partem para um destino desconhecido e são surpreendidos por uma forte tempestade que se transforma em dilúvio. Abrigados no topo de uma palmeira, ela espera a morte chegar, mas o rapaz conta uma lenda em que Tamandaré e sua esposa se salvaram de uma situação parecida e ao término da enchente, desceram e povoaram a Terra. As águas sobem, a moça se desespera e ele arranca uma palmeira para fazer uma canoa e poderem continuar pelo rio, deixando subentendido que a lenda de Tamandaré se repetiu com os dois.
Já no filme, o final é para a gente dormir feliz. Como o orçamento não permitia criar um dilúvio, Norma Benguell optou por mostrar os dois trocando juras de amores enquanto vagam pela mata que, aliás, é belíssima. Parece um paraíso.
Curiosidades.
A obra fez de José de Alencar um autor reconhecido. Foi republicada por diversas editoras e, atualmente, encontra-se em domínio público. Ou seja, qualquer pessoa pode reproduzir a história da maneira que quiser sem ter que pagar nada para ninguém por isso.
A antropofagia dos Aimorés era bem distinta do que se propagou nas lendas e nas histórias cinematográficas. Os indígenas consumiam carne humana, mas não saiam caçando gente para comer, eles devoravam os guerreiros adversários que capturavam pensando que absorveriam a força e valentia desses homens. O filme Hans Staden que conta a história do alemão que sobreviveu meses sob captura dos Tupinambás em 1554, aborda esse tema. É outro povo, mas com os mesmos hábitos dos Aimorés, e ele não foi devorado porque não demonstrava valentia, aí os indígenas não queriam comer ninguém frouxo.
Norma Bengell nasceu no dia 21 de fevereiro de 1935. Ela foi uma mulher fascinante, corajosa e transgressora. Começou a trabalhar aos 16 anos como modelo e atuou como vedete no teatro de revista. Sua estreia no cinema ocorreu em O Homem do Sputnik em 1959, fazendo uma paródia hilária da atriz francesa Brigitte Bardot.
Em 1962, ela fez história ao protagonizar o primeiro nu frontal no cinema, no filme Os Cafajestes. No mesmo ano, ela já tinha atuado no longa O Pagador de Promessas como a prostituta Marli. Depois, mudou-se para a Itália. Ao longo de sua carreira rodou mais de 60 filmes ao lado de grandes nomes do cinema mundial e trabalhando com diretores renomados. Namorou o ator francès Alain Delon e foi casada com o ator italiano Gabriele Tinti.
Norma virou alvo da ditadura militar e após ser detida e perseguida por agentes do regime, em 1971, exilou-se na França, onde morou e trabalhou no teatro por cinco anos. Ao retornar ao Brasil, decidiu ir para trás das câmeras, sua estreia na direção foi o aclamado Eternamente Pagu, de 1987, dirigiu o documentário O Indomável Som do Meu Tambor e, depois, O Guarani, em 1996, quando foi alvo de muitas polêmicas.
O filme foi o primeiro a se beneficiar da Lei Rouanet e captou 3 milhões e 900 mil reais, no entanto, o Ministério da Cultura apontou graves irregularidades nas notas fiscais apresentadas. Talvez por falta de clareza na forma de declarar o destino do dinheiro recolhido pelas empresas patrocinadoras, e no acompanhamento do órgão responsável, Norma Bengell foi indiciada pela Polícia Federal sob acusação de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e apropriação indébita.
Segundo a polícia, ela se apropriou do dinheiro captado para comprar um apartamento e ainda não declarou o valor correto. Dois anos depois, o imóvel foi vendido pelo mesmo valor da compra para uma offshore uruguaia da qual era sócia. A empresa revendeu o imóvel por 1 milhão e 600 mil reais, em 2000. Norma disse nunca ter tido empresa no Uruguai, confirmou ter comprado o imóvel, mas não com dinheiro captado para o filme e disse não se lembrar por quanto o vendeu.
Ela sempre negou ter se beneficiado ilegalmente do dinheiro e declarou publicamente que o longa-metragem a deixou cheia de dívidas. Afirmou que o filme O Guarani foi a única mácula em sua carreira. Por conta dos processos, a Justiça do Rio de Janeiro bloqueou seus bens, e embora tenha conseguido vencer dois processos relacionados ao caso, o desgaste de imagem provocado pelas denúncias nunca foi totalmente apagado de sua memória profissional.
Seu último trabalho na TV foi a personagem Deise Coturno, do seriado Toma Lá, Dá Cá, da TV Globo, exibida entre 2007 e 2009. Norma faleceu aos 78 anos, em outubro de 2013, vítima de um câncer no pulmão. Ao receber o diagnóstico preferiu não fazer tratamento para morrer em paz.
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