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Bráulio - campanha de prevenção da AIDS

Em 1995, o Ministério da Saúde resolveu fazer uma campanha para conter a epidemia do HIV através do uso do preservativo, para isso, colocou em horário nobre uma série de vídeos em que um homem, em situações diversas, conversava com seu órgão genital. O seu nome era Bráulio. Não do homem, do seu genital.

A agência Master, de publicidade, com sede em Curitiba, atendia o Ministério da Saúde e foi a responsável por criar dois personagens inusitados. Na verdade, é um só, o homem que não tem nome, mas que dá nome a seu genital. Eles conversam e têm vozes diferentes. Os criadores teriam se dedicado a dias e noites de trabalho até chegar a essa brilhante ideia que foi aprovada por unanimidade na equipe que, segundo eles, em entrevistas para jornais na época, boa parte dos homens apelidava seus membros e um dos criadores contou que o seu era chamado de Braúlio. Por isso esse nome foi escolhido, e pegou.

Os vídeos mostravam um homem conversando com seu orgão genital em um bar, no banheiro, e até usando uma prótese para ensinar o passo a passo de como colocar um preservativo.

O ator que aparece em cena é Emílio de Mello que, na ocasião, tinha 30 anos. Ele já tinha atuado na minissérie Anos Rebeldes em 1992, e na novela Patria Minha em 1994, ambas produções da Globo. Depois atuou em várias teledramaturgias, filmes e teatros, como ator e diretor.

A voz do Bráulio foi feita pelo ator Leonardo Serrano que, na ocasião, tinha 33 anos. Ele tinha feito uma pequena participação na novela Barriga de Aluguel e, depois, trabalhou em inúmeras produções como dublador, profissão que iniciou em 1990, desde então já fez a voz de vários personagens nas versões brasileiras de filmes, animações e séries.

Na época em que a campanha foi ao ar, ele disse que nem os seus próprios amigos sabiam que era a sua voz. Estava todo mundo comentando os vídeos e ninguém sabia que foi eleu que fez o Bráulio. Ele foi selecionado dentre trinta dubladores, locutores e atores que tentaram o papel. Foram dois dias de trabalho que lhe rendeu um bom cachê. Para o primeiro teste, Bráuilo teve quatro vozes diferentes e, depois, na segunda seleção, Leonardo ofereceu ao diretor dos comerciais, 12 opções de vozes.

A ideia original é que o Bráulio tivesse a voz de um lorde inglês, enchendo a boca. Mas o ator preferia uma voz mais engraçada. E o Ministério da Saúde pediu uma voz mais careta, mais simples, que qualquer um entendesse porque, segundo pesquisas, o Brasil tinha 71.111 casos de Aids na época, 80% deles era entre a população masculina de 19 a 35 anos. Era para essa população que a nova campanha queria falar. Mais especialmente para os homens entre 20 a 40 anos, das classes de renda mais baixa, que relutavam em usar preservativo.

Talvez porque na época o governo não distribuia gratuitamente nos postos de saúde, como acontece nos dias de hoje. E segundo matéria da Folha de São Paulo, o valor médio era de oitenta centavos de reais, era mais do que custava um litro de leite e cinco pãezinhos.

A década de 1990 foi o ápice do fantasma da AIDS, vários famosos morreram em decorrência de complicações do vírus HIV. O Cazuza, o Freddie Mercury, o Renato Russo, o Zacarias, o escritor Caio Fernando Abreu, a Chacrete Leda Zepellin, a atriz Sandra Brea... A Sandra já foi no ano 2000, mas ela assumiu ser soro positivo ainda na década de 90.

A campanha do Ministério da Saúde custou quatro milhões e meio de reais aos cofres públicos e era considerada a mais agressiva e ousada já feita pelo governo. Não se limitava só aos vídeos da televisão, teve música, gibis... e falava abertamente sobre sexo oral e anal.


A campanha era mais motivo de piada, razão pela qual muitos Bráulios não gostaram nem um pouco dessa brincadeira. Em dois dias, 34 Bráulios ligaram para o Ministério da Saúde reclamando do uso do nome na campanha e vários homens ameaçaram recorrer à Justiça. Um executivo disse que até aquele momento não havia sido importunado, mas depois perdeu um tempão no telefone ouvindo brincadeiras dos amigos. E outro rapaz que não quis se identificar, não aguentou as gozações e, segundo sua mãe, fugiu para um sítio no interior do estado.

O Ministério da Saúde suspendeu a veiculação dos vídeos, duas semanas após a estreia, e a campanha foi interrompida. Tinha um jingle que ia estrear nas rádios também chamado Melô do Bráulio, em ritmo de forró, cantado por Genival Lacerda que foi cancelado. Fizeram uma pesquisa para escolher outro nome, de preferência neutro, e mil pessoas foram ouvidas, a maioria não gostou dos apelidos que foram cogitados pelo governo como bicho e fera, mas teve 450 sugestões enviadas por meio de fax, cartas e telefonemas, onde Bilau foi citado seis vezes.

Não houve consenso e optaram por deixar o personagem sem nome. O jingle para as rádios foi regravado e os vídeos para a televisão foram refeitos, sem custo para o Ministério da Saúde, e o nome do Bráulio foi substituido por expressões do tipo: sócio, meu, xará, cara, moço, sujeito, homi e ele.

Passaram-se os meses, não muitos, mas o suficiente para os Bráulios começarem a ter sossego de volta e, então, estreou a nova novela das sete da Globo chamada Vira Lata, onde um dos protagonistas se chamava Braulio Vianna, um cara que passava a maior parte do tempo só de calça de pijama ou de cueca.

Em 2001, um homem entrou na justiça, dizendo ter sido vítima de danos morais em brincadeiras feitas pelos amigos, mas o tribunal não se comoveu com a história e negou o pedido de indenização.

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