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Vamp

A melhor novela de 1991 tinha mortos vivos como protagonistas que não tinham problemas em sair ao sol, mas dormiam em caixões, soltavam raios pelas mãos e choravam sangue. Era terrível, era chocante, era Vamp. O folhetim que passava na faixa das 19h na Globo roubou todas as cenas com um romance de vampiros que foi pensado para ser sério, mas diante das dificuldades técnicas e do resultado cômico dos efeitos especiais o autor resolveu chutar o balde e zoar a própria história. Deu muito certo.

Antônio Calmon foi o autor da bem-sucedida Top Model, em 1989, e teve a ideia de criar uma novela sobre vampiros durante uma viagem a Los Angeles com o diretor Daniel Filho. Aliás, as duas novelas têm muita coisa em comum, inclusive boa parte do elenco é o mesmo. Ele disse que a proposta foi aceita de imediato e se inspriou em várias produções hollywoodianas para criar os núcleos da história como A Noviça Rebelde e Sete Mulheres para Sete Irmãos que foram a base para o arco da família Rocha. Além de da comédia A Dança dos Vampiros, O Poderoso Chefão e obviamente Drácula de Bran Stoker.

Vamp estreou no dia 15 de julho de 1991, no horário das 19h, na TV Globo. Foi escrita por Antônio Calmon, com colaboração de Vinícius Vianna, Lílian Garcia e Tiago Santiago o autor de Os Mutantes na Record, A direção geral ficou a cargo de Jorge Fernando e contou com Cláudia Ohana, Ney Latorraca, Reginaldo Faria, Joana Fomm, Fábio Assunção, Nuno Leal Maia, Patrícya Travassos, Otávio Augusto, Guilherme Leme, Vera Holtz e Marcos Frota nos papéis principais.

A história se passa em Armação dos Anjos, cidade fictícia do litoral do estado do Rio de Janeiro, onde o capitão reformado Jonas Rocha, viúvo com seis filhos, casa-se com a historiadora Carmem Maura, também viúva e com seis filhos. A vida deles muda totalmente com a chegada de Natasha, uma cantora de rock que vendeu sua alma para brilhar na carreira, ao terrível conde Vladymir Polanski, o Vlad chefe dos vampiros. Pois, em encarnações passadas Natasha era Eugênia, o amor de Vlad, que preferiu ficar com Rocha, a outra vida do capitão Jonas.

A única forma de Natasha se livrar de sua maldição é encontrar a Cruz de São Sebastião para destruir Vlad. Razão pela qual ela foi parar em Armação dos Anjos, é onde a cruz está escondida e deve ser manejada por um homem chamado Rocha. Além da batalha dos vampiros, tem o caso do assaltante Jurandir que se esconde na cidade e se disfarça de padre para fugir do Cachorrão, um líder de criminosos.

A novela teve várias filmagens na cidade de Armação dos Búzios, Região dos Lagos no estado do Rio de Janeiro, e a cidade fictícia Armação dos Anjos (1) foi criada no terreno onde estava em construção o PROJAC, dividindo espaço com Vila Feliz da novela Felicidade (2) e a cidade de São Paulo dos Anos 20 da novela Salomé (3).

A última cena de cada capítulo virava uma arte em referência aos quadrinhos, a ideia foi do diretor Jorge Fernando e o desenho era feito pelo desenhista Roger Mello. Aliás, as Histórias em Quadrinhos também foram referências do figurinista Lessa de Lacerda, que usou gibis dos Vingadores para criar algumas das peças da personagem Natasha.

A novela Vamp foi um dos maiores desafios da emissora na época, porque não tinha os recursos necessários para fazer os efeitos especiais que a trama exigia, razão pela qual Antônio Calmon quis escrever O Beijo do Vampiro em 2002, quando podia usar os efeitos que não pode em 1991. Segundo Jorge Fernando, muitos truques eram feitos de forma amadora durante as gravações mesmo, se tivesse que fazer desaparecer ou aparecer alguém ou alguma coisa, pedia para os atores ficarem congelados para fazer as alterações no estúdio e depois dava sequência à cena. E em algumas vezes teve que usar artefatos explosivos de verdade. Ainda assim, constantamente os personagens eram transformados em cães, morcegos e ratos.

Diante das dificuldades técnicas, Antônio Calmon optou por seguir uma linha mais cômica. Em uma das cenas, o Conde Vlad vai a um cemitério em noite de lua cheia para ressuscitar seus companheiros que haviam sido destruídos pelas forças do bem. Ele evoca os mortos-vivos de Armação dos Anjos para formar um exército recriando o vídeo e a coreografia da música Thriller, de Michael Jackson.

A vinheta mostrava um grupo seguindo os rastros de um vampiro que se transformava em um cachorro e atacava uma moça convertendo-a em vampira também, com a música Noite Preta de Vange Leonel ao fundo, além dessa, outras treze faixas fizeram parte da trilha sonora nacional que tinha a atriz Claudia Ohana na capa, inclusive um dos maiores hits da novela foi em sua voz, Sympathy for the Devil, um dos clássicos da banda Rolling Stones foi convertido no maior hit de Natasha. A música fez tanto sucesso que entrou na lista das mais pedidas nas rádios e a atriz participou de alguns programas de televisão para cantar o tema.

Outra faixa que fez sucesso foi Grunir, de Orlando Moraes, e um trecho instrumental foi usado na vinheta dos intervalos da novela. Teve até Vinny, muito antes de pedir para a Heloisa mexer a cadeira ele fazia parte do grupo Hay Kay, a música Segredos na trilha da novela.

Evandro Mesquita, presente na trama como Simão, teve uma de suas músicas do seu álbum Almanaque Sexual dos Eletrodomésticos e dos Outros Animais, a Chacal Blues como tema de seu personagem.

Outra faixa que tem história é Suga Suga de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Segundo Avelar Love, Mariozinho Rocha, o responsável pelas trilhas das novelas da Globo, pediu para um dos rapazes do grupo uma música para a novela, mas ele não entendeu bem do que se tratava e produziram a música O Monstro, mas quando apresentaram para a gravadora, não servia, então tiveram basicamente um fim de semana para compor o novo tema que foi incluída no disco da novela no último prazo.

E a música Patinho Feio na voz de Angel Mattos, segundo Mariozinho Rocha, na época as Paquitas estavam em alta e ele queria uma música na voz delas na trilha da novela, então deu a letra para Marlene Mattos, mas ela devolveu a gravação na voz de sua irmã, alegando que as meninas não tinham tempo para gravar.

Curiosamente a música foi tema de Jade, personagem de Luciana Vendramini, aquela que pensa até hoje que foi Paquita, mas só fez o teste. É ela quem está na capa da trilha sonora internacional, cujo álbum tem 14 faixas. Dentre as mais lembradas estão I Remember You de Skid Row, Love Hurts de Cher, What a Wonderful World de Louis Armstrong, It Ain't Over ‘Til It's Over de Lenny Kravitz, Wicked Game de Chris Isaak, e, Boy, de Deborah Blando.

Déborah Blando foi agenciada pelo mesmo empresário de Cindy Lauper e Boy, o seu primeiro single, foi destaque nas rádios estados-unidesnse e europeias, além de integrar uma famosa campanha publicitária da Coca-Cola, a Diet Coke, nos Estados Unidos.

E ainda teve um terceiro álbum, o disco Rádio Corsário - O Som da Galera Vamp, com 15 faixas, mesclando canções brasileiras e internacionais. Dentre elas tem Kid Abelha, Supla e Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, na voz de Cláudia Ohana, que foi o segundo hit de Natasha na novela.

A Globo perdeu uma grande oportunidade de lançar um álbum completo da Natasha porque só na novela ela teve dois hits, Sympathy for the Devil e Quero Que Vá Tudo Para o Inferno que estão nos álbuns da trilha sonora da novela, além dela ter cantado Don't Let the Sun Go Down on Me de Elton John, e Doce Vampiro de Rita Lee, que até gravou uma participação na novela.

E teve uma quinta música, foi a primeira, logo no começo da novela, Sadeness, do grupo Enigma, quando Natasha faz uma performance na Praça de São Marcos em Veneza, em uma das cenas mais icônicas da novela, mas que virou caso de polícia no país. A música foi considerada uma ofensa religiosa pelas autoridades locais e desaprovada pela Igreja Católica por misturar cantos gregorianos tradicionais com batidas sensuais e letras que remetiam ao Marquês de Sade, então, mesmo com autorização para gravar no local a polícia interrompeu as gravações.

Sadeness não entrou na trilha sonora de Vamp, mas entrou na trilha de O Dono do Mundo que passava simultaneamente e que tinha menos audiência. Vamp era a melhor novela da época e isso se refletiu no Ibope, enquanto alcançou uma média de 50 pontos, a novela das 6, Salomé, ficou com 31 e, depois a sua substituta, Felicidade, ficou com 38, e a novela das oito, O Dono do Mundo, ficou com 48.

Vamp foi reprisada na Sessão Aventura, no horário das 16h15, de 4 de janeiro a 2 de julho de 1993, em 130 capítulos, tendo sido a última novela reapresentada na faixa, e foi reprisada na íntegra pelo Viva de 11 de abril a 15 de dezembro de 2011. Em fevereiro de 2016 foi lançada em DVD pela Globo Marcas, e em 1 de março de 2021, foi disponibilizada na íntegra pelo Globoplay através do Projeto Resgate.


Curiosidades

Victor Fasano foi o primeiro nome considerado para Vlad, mas o diretor resolveu apostar em Ney Latorraca, mesmo o ator dizendo que só gravaria 9 capítulos porque estava em cartaz com a peça O Mistériro de Irma Vap. No entanto, depois de ver o sucesso da novela ele não teve dúvidas em continuar, porém, pediu para sair da trama ao ser advertido para deixar de improvisar e não sair do roteiro. Disse que ficou 4 dias fora e o chamaram de volta, dando total liberdade na atuação.

O papel da vampira Natasha, a protagonista, tinha sido cogitado para Débora Bloch e foi oferecido para a cantora Paula Toller, vocalista do Kid Abelha. No entanto, Débora Bloch não cantava e Paula Toller recusou o convite. Assim, o papel foi parar nas mãos de Claudia Ohana. Outro artista que recusou papel na novela foi o Paquito Alexandre Canhoni, ele deixou o grupo em 1991, e preferiu investir em sua carreira musical.

A atriz Cleyde Yáconis, que interpretou a personagem Virgínia, já tinha feito uma novela de vampiros. Ela esteve no elenco de Um Homem Muito Especial, na Band, além da sua versão original da Tupi, Drácula -  Uma História de Amor, que foi cancelada com apenas 4 capítulos feitos.

Mari Matoso, personagem de Patrícia Travassos, era uma ex-atriz de pornochanchada, e seu visual deveria remeter aos anos 70. Para chegar ao penteado perfeito, a produção improvisou com um canudo de papel higiênico para deixar o rabo de cavalo mais evidente. Outro detalhe de seu personagem é que quando se transformava em vampira ela usava óculos escuros, isso porque os vampiros tinham os olhos brancos, mas as lentes estavam lhe causando irritação.

A razão do personagem Matoso ter só uma presa é porque o ator Otávio Augusto não conseguia falar bem com a prótese de presas, mas conseguia se usasse só uma.

Em 2017, a novela foi adaptada para os palcos pela Aventura Entretenimento com os mesmos protagonistas no palco: Ney Latorraca e Cláudia Ohana. O musical estreou em 17 de março no Teatro Riachuelo Rio. O musical ganhou uma nova personagem: Madrácula, a mãe de Vlad, além de ganhar novas músicas e outro final.

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O Rei do Gado

A novela O Rei do Gado estreou no dia 17 de junho de 1996, no horário das 20h30 da TV Globo. Foi escrita por Benedito Ruy Barbosa, teve direção geral e de núcleo de Luiz Fernando Carvalho, e contou com as participações de Antônio Fagundes, Patricia Pillar, Raul Cortez, Glória Pires, Fábio Assunção, Silvia Pfeifer, Carlos Vereza e Stênio Garcia entre os principais atores do elenco.

A novela se divide em duas fases, na primeira, que tem duração de sete capítulos, Leonardo Bricio e Leticia Spiller são os grandes protagonistas da trama, eles interpretam os jovens Enrico e Giovanna, ele é filho de Antônio Mezenga, vivido por Antônio Fagundes, e ela de Antônio Berdinazzi, interpretado por Tarcísio Meira, duas famílias vizinhas que vivem em guerra por causa de uma cerca no limite de suas propriedades. Mesmo contra a vontade dos pais os dois se casam e precisam fugir, o filho de ambos recebe o nome de Bruno Mezenga.

Nessa primeira fase, além de letícia spiller e leonardo bricio, Antônio Fagundes também esteve presente com Tarcisio Meira, Eva Wilma, Vera Fischer e Claudio Correa e Castro.

As cenas se passavam durante a Segunda Guerra Mundial e a equipe da telenovela viajou à cidade de Craco, uma das regiões mais pobres da Itália para fazer gravações. Esses capítulos são uma verdadeira obra de arte, receberam tratamento para que se aproximassem de uma produção cinematográfica e ficaram belíssimos. Segundo Antônio Fagundes, os sete capítulos da primeira fase levaram cerca de três meses para ficar prontos.

A produção tinha prometido ao elenco um descanso de pelo menos um mês entre as duas fases da telenovela, mas o intervalo foi de apenas 12 horas. Antônio Fagundes, que fazia o avô na primeira parte da história e o neto na segunda, engordou para o primeiro personagem e esperava perder peso para voltar em cena, mas não teve tempo. 

Na segunda fase, Antônio Fagundes assume o papel de Bruno Mezenga que se transforma num dos maiores criadores de gado do país conhecido como o Rei do Gado e dá sequência a guerra com o vizinho, dessa vez o Geremias Berdinazzi, interpretado por Raul Cortez.

E apesar da riqueza, Bruno Mezenga tem uma família complicada, sua esposa Léia, interpretada por Silvia Pfeifer, lhe trai com um garoto de programa, o Ralf, papel de Oscar Magrini. Bruno e Leia tem dois filhos, a Lia, feita por Lavínia Vlasak, e Marcos, por Fábio Assunção. Os dois vivem relacionamentos atribulados com Pirilampo e Liliana, respectivamente, personagens de Almir Sater e Mariana Lima.

A vida dos dois fazendeiros muda completamente com a chegada de duas mulheres, a Marieta, interpretada por Glória Pires, que diz ser a sobrinha desaparecida de Geremias, e Luana, vivida por Patricia Pillar, uma boia-fria de passado incerto, por quem Bruno se apaixona. Seu personagem é utilizado para discutir a reforma agrária e a vida dos trabalhadores do Movimento dos Sem Terra, o MST.

A sede da maior fazenda da trama foi construída nos Estúdios Globo, e pelo menos outros cinco polos de gravação foram usados para construir a trama, como Amparo, Ribeirão Preto e Itapira no estado de São Paulo, Guaxupé em Minas Gerais e Aruanã em Goiás, por onde se espalhavam as fazendas usadas como locação. 

A vinheta de abertura mostra boiadeiros conduzindo gado pelo pasto, começa com um homem montando um cavalo e um boi sendo marcado a ferro quente com a logo da novela. No final, o boiadeiro é o protagonista Bruno Mezenga que se converte em ouro, ao som de Rei do Gado do grupo Orquestra da Terra.

A novela teve dois álbuns com a trilha sonora, o primeiro tem a atriz Patricia Pillar na capa e contém 14 faixas, com duas músicas internacionais. La Forza De La Vitta de Renato Russo e The Woman in Me de Shania Twain. Esse é o disco de novela mais vendido da história, ultrapassou a marca de 2 milhões e 100 mil cópias vendidas.

O volume 2 tem na capa a dupla Almir Sater e Sérgio Reis como a dupla Pirilampo & Saracura, que interpretam 8 das 12 faixas. As outras faixas são com Christian & Ralf com participação de Aguinaldo Rayol, João Paulo e Daniel, Orquestra da Terra, e Dominguinhos. Esse álbum vendeu menos da metade do anterior, mas ainda assim é um número bem expressivo, passou das 900 mil cópias vendidas.

O Rei do Gado estreou com média de 51 pontos e pico de audiência de 55. Em seu último capítulo, registrou 60 pontos. É a novela da Globo que mais reprise teve na emissora, só no Vale a Pena Ver de Novo, desde a sua estreia em 1996 até 2026, foi exibida três vezes. A primeira entre março e agosto de 1999, a segunda entre janeiro a agosto de 2015, e a terceira vez entre novembro de 2022 a junho de 2023. Em alguns casos ultrapassando a audiência da novela das 18h e das 19h e se aproximando do IBOPE da novela das 21h.

Além disso, passou na íntegra no canal Viva entre fevereiro a novembro de 2011, e estreou no Globoplay Novelas em fevereiro de 2026. Mas já está disponível no Globoplay desde 29 de novembro de 2021.

Tem outras novelas que já foram reprisadas três vezes, como O Cravo e a Rosa, Chocolate com Pimenta e A Viagem, mas essas tiveram duas reprises no Vale a Pena Ver de Novo, a terceira foi na faixa Edição Especial.


Curiosidades

O Rei do Gado marcou a estreia na TV Globo de Marcello Antony, Caco Ciocler, Emílio Orciollo Netto e Lavínia Vlasak.

E dois políticos participaram da novela, os senadores Eduardo Suplicy e Benedita da Silva, que atuaram no funeral do Senador Caxias, vivido por Carlos Vereza.

Alguns atores como Letícia Spiller e Patricia Pillar se submeteram a laboratórios, onde ensaiaram com a atriz e bailarina Gisela Rodrigues, professora e pesquisadora do Departamento de Artes Corporais da Unicamp, para comporem suas personagens. Patricia Pillar passou dez dias entre os cortadores de cana-de-açúcar para compor a Luana.

Leonardo Brício, Caco Ciocler, Manuel Boucinhas e Marcello Antony viajaram para a região de Amparo, em São Paulo, onde aprenderam montaria e cavalgagem, bater feijão e colheita do café, entre outras atividades.

A equipe de maquiagem fez um curso com Ve Neill, maquiadora de Hollywood, indicada ao Oscar 1993 na categoria de melhor maquiagem feita em Jack Nicholson no filme Hoffa, de 1992, ela veio ao Brasil para treinar as profissionais da telenovela com o material que seria usado para caracterizar os personagens que eram imigrantes trabalhadores da terra queimados pelo sol e endurecidos pelo tempo.

O Rei do Gado passou em mais de 30 países, dentre eles: Portugal, Argentina, África do Sul, Canadá, Chile, Cuba, Grécia, Nicarágua, Noruega, Paraguai, Peru, Polônia, Rússia e Uruguai. No entanto, em outubro de 2006, o presidente da Rede Bandeirantes, Johnny Saad, em entrevista à Folha de S.Paulo, declarou ter ouvido de países vizinhos problemas com as telenovelas brasileiras em razão do excesso de temperos e de ideologias. Ele usou O Rei do Gado como exemplo que teve participação de políticos reais e isso entra em choque com certas culturas.

Segundo ele, diferente do Brasil, a TV aberta no mundo é muito conservadora. Talvez isso explique as mudanças feitas nos folhetins, não é só para agradar o público conservador do nosso país, é porque produzindo água com açúcar vende mais para o exterior. É uma pena porque as novelas brasileiras são famosas no mundo todo justamente por serem mais próximas da realidade do que as outras produzidas em outros países.

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Novelas brasileiras tem trilha sonora no exterior?

As novelas brasileiras ficaram famosas em muitos países, são vários que transmitem nossos folhetins já há muito tempo, de diversas maneiras. Uma das mais famosas e que mais influência exerceu no exterior foi A Escrava Isaura de 1976, estrelada por Lucélia Santos. Na China, passava apenas um capítulo por semana e tinha grande repercussão. Em Cuba, fez tanto sucesso que o governo de Fidel Castro determinou o cancelamento do racionamento planejado de energia elétrica durante o horário da novela. Na Rússia também deu o que falar, inclusive a palavra fazenda foi incorporada oficialmente ao vocabulário da população do país por influência do folhetim. 

E A Escrava Isaura foi tão impactante que parou até uma guerra. Nos anos de 1990, durante os ataques entre Bósnia e Sérvia, ambos os países interromperam os combates para acompanhar a trama. Na hora da novela os soldados baixavam as armas para sentar diante da televisão.

Quando comparamos as nossas novelas com as estrangeiras que passam no Brasil um detalhe que chama muito a atenção é a falta de uma trilha sonora impactante. Quanto toca alguma coisa é uma música instrumental neutra, além dos nossos folhetins se estenderem por mais meses. Mas o que ignoramos é que nossas tramas, quando vendidas para o exterior, são compactadas e não têm a mesma trilha sonora que apresentam no Brasil. Isso porque tem muito merchandising e diversas cenas são criadas apenas para que seja usado uma música de fundo que servia para alavancar a venda dos álbuns musicais. Tem ainda as barrigas que as vezes se formam naquelas fases em que o diretor tem que esticar as situações para fechar os capítulos quando o autor atrasa os textos, ou mesmo quando o autor precisa fazer alterações a pedido da emissora.

Então, essas enrrolações, merchandising, e tudo o que é desnecessário, sai fora. As novelas ficam mais a cara de Dona Beja produzida pela HBO, ou Guerreiros do Sol e Todas As Flores da Globoplay, que são mais enxutas, dinâmicas, e mais curtas.

Em relação aos temas musicais, isso depende de algumas circustâncias. Para a emissora que produz uma novela e quer colocar música na trilha sonora, ela precisa de uma autorização prévia chamada licença de sincronização. A emissora paga uma taxa única para os donos dos direitos da música, é valor que se divide entre a gravadora que detém o fonograma e o intérprete da música. E outra taxa vai para a editora que é a empresa que paga o compositor pela autoria da letra e da melodia.

Não dá para sair usando música assim de qualquer jeito, porque a gravadora, o cantor e o compositor precisam receber. Então, toda vez que uma novela vai ao ar na TV aberta, na TV fechada ou no streaming, a emissora gera o direito de execução pública e precisa pagar ao Ecad, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, mesmo que seja reprise. O Ecad repassa 85% do valor que recebe para as associações de música, que distribuem o dinheiro aos artistas proporcionalmente ao número de vezes que a música tocou na novela. E o compositor é quem recebe a maior fatia desse repasse. 

A Globo que é a maior produtora de telenovelas no Brasil criou um monte de selos discográficos, a mais importante usou o nome fantasia Som Livre, cuja razão social se chama SIGLA (Sistema Globo de Gravações Audiovisuais LTDA). Essa gravadora servia para lançar no mercado fonográfico os temas dos programas da emissora, dentre os quais, os discos das novelas eram bem rentáveis. O recordista de venda, que passou dos dois milhões de cópias foi o vollume 1 de O Rei do Gado.

Então, a Som Livre era a empresa responsável por negociar os fonogramas que a Globo usava nos folhetins. Muitas vezes as gravadoras aceitavam ceder seus artistas de graça em troca do seu nome aparecer no encarte do álbum e que o artista ganhasse exposição no horário nobre, então, o lucro vinha depois, com as vendas de shows e dos discos próprios daquele cantor. Essa tática não se limitava só aos cantores nacionais, as novelas projetaram muitos cantores internacionais no Brasil.

Mas a Madonna não concordou com isso não, e deu um baita prejuízo para a Globo. Não foi exatamente um prejuízo, mas a emissora perdeu um dinheirão porque colocou a música Crazy For You na trilha internacional da novela A Gata Comeu, em 1985, com autorização da representante da Warner no Brasil. Só depois de o disco já ter sido colocado nas lojas a matriz da gravadora, nos Estados Unidos, ficou sabendo e disse que não podia, que o contrato da rainha do pop não permitia esse tipo de coisa, então, tiveram que recolher os LPs e trocar a faixa por Smooth Operator da cantora Sade.

Bom, a Som Livre negociava o uso das músicas só no Brasil, então, a Globo começou a fazer parcerias com as gravadoras internacionais para conseguir mais opções para os discos das suas novelas e já aproveitava para ganhar um dinheirinho lançando os discos dos artistas estrangeiros no Brasil, além de lançar parte do seu casting no exterior. Teve o selo Globo Columbia que era uma parceria da Globo com a Sony Music, a dona da marca Columbia na época.

Teve o selo Globo Polydor que era uma parceria da Globo com a Polydor Records.

Teve o selo Globo Records que era uma parceria com a RCA Records.

E o selo Globo Discos que operava somente no Brasil e nasceu com o intuíto de lançar coletâneas, trilhas internacionais alternativas e karokes, como foi o caso do Karaokê da Xuxa, mas durou apenas quatro meses, de agosto a dezembro de 1987.

Através da Globo Records a emissora comercializava as trilhas sonoras da teledramaturgia e dos seus artistas no mercado internacional. No entanto, nem todas as músicas que estavam nos discos do Brasil eram liberadas para o mercado internacional. Como nem sempre havia acordo entre as gravadoras, ou entre os artistas, a Globo também fazia muitas músicas encomendadas especialmente para as novelas.

Isso facilitava a liberação da música para o exterior e também no sentido inverso. Ou seja, tal como aconteceu com a música da Madonna no disco de A Gata Comeu, nem sempre a Som Livre recebia autorização para usar as músicas que queria, ou tinha que pagar muito caro pelo fonograma, então, era muito comum que cantores brasileiros gravassem em inglês e usassem outros nomes para que não fossem identificados. O Tiago Iorc, antes de ficar famoso no Brasil, gravou várias músicas internacionais para novelas da Globo.

Além disso, em todos os discos sempre tinham algumas faixas que eram feitas exclusivamente para a novela, geralmente as instrumentais, mas teve disco que foi 100% original. Foi o caso de O Bem-Amado, de 1973, e Cambalacho de 1987.

A novela Que Rei Sou Eu, de 1989, entrou na lista dos folhetins que teve quase todas as faixas originais, a maioria foi composta para a trama.

Obviamente as emissoras querem faturar quando vendem suas novelas para o exterior, e como os custos para liberar uma música em nível mundial são extremamente altos, os contratos com as gravadoras são específicos para o Brasil. Então, é mais vantajoso que as músicas da trilha sonora sejam retiradas ou substituídas na edição internacional por canções instrumentais genéricas. 

E com a expansão do streaming os acordos para uso de músicas nas novelas precisaram ser revisados, talvez por isso as novelas diminuiram bastante suas trilhas. Tudo precisa passar por mais filtros e as novelas estão tomando ares de séries.

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As novelas mexicanas que salvaram o SBT

O Silvio Santos tinha muito êxito com a sua produtora, a Studios Silvio Santos, tanto que ele até emprestou dinheiro para a Globo. Segundo o Boni, o apresentador dava uma grande quantia em dinheiro para ser descontado nos horários que comprava na grade de programação. Mas quando o SBT entrou no ar, as coisas mudaram, a sua história é cheia de crises financeiras. Por exemplo, em 1991, o cofre estava vazio por causa da novela Brasileiras e Brasileiros que tinha o elenco cheio de grandes nomes da teledramaturgia, mas cuja história não agradou o público e despencou no IBOPE. O home do baú mexeu nos programas infantis e fechou o núcleo de dramaturgia para reduzir gastos, mas o que salvou mesmo a emissora foi criação da Tele Sena.

Depois, outra grande crise aconteceu no início da década de 2000, com a grande investida da Record em ocupar o primeiro lugar de audiência, Silvio Santos perdeu contratos vitais com a Televisa, caiu para terceiro lugar, e os anunciantes também mudaram de canal. E quando ele partiu da Terra, em 2024, o SBT já estava passando por uma grande crise outra vez. E o pior, é que a Daniela Beyruti, a presidente da emissora, começou a repetir os mesmos erros que afundaram ainda mais o canal durante as dificuldades de equilibrar o caixa no começo dos anos 2000, que é essa troca constante de horário na programação e de estreia e cancela programa sem dar tempo para o público se acostumar.

Ela deveria olhar mais para o que aconteceu no ano de 1991, quando ela completou 15 anos, para avaliar o que deu e não deu certo. Na época, Silvio Santos apresentava o programa Qual é a Música?, no ar desde 1976. O programa foi um dos que passaram pelo corte de investimentos da emissora e deixou a grade. Show de Prêmios ocupou o horário, era um das atrações feitas para vender carnê do Baú da Felicidade.

O Qual É A Música? era um programa estados-unidenses chamado Name That Tune, então era necessário pagar para a empresa que detinha os direitos para usar o formato no Brasil, além de um bom dinheiro que ia para os artistas que da competição, para a orquestra do maestro Zezinho, para os dubladores... enfim, custava uma grana. E o mesmo aconteceu com o Bozo, era necessário pagar para usar o personagem no Brasil e Silvio Santos optou por não renovar o contrato. Corrida Maluca com o Gugu é outra atração licenciada que foi substituída, em seu lugar estreou o Big Domingo.

Teve estreia de alguns programas genuinamente brasileiros como o Aqui Agora que era um formato resgatado da extinta TV Tupi. Estreou o Jornal do SBT que é a mesma formula usada por todas as emissoras. Estreou o Topa Tudo Por Dinheiro que custava pouco em relação ao retorno que a emissora tinha. E teve três novelas no horário nobre que contribuíram muito para a recuperação do SBT. E um detalhe importante, tanto a Globo, quanto a Manchete, não estavam sem suas melhores fases.

A Manchete estava com a novela A História de Ana Raio e Zé Trovão no ar, que manteve um bom índice de audiência, mas não conseguiu manter o mesmo público de Pantanal. E a Globo estreou O Dono Do Mundo que conquistou algumas pessoas, aquelas que tiveram paciência para acompanhar a trama do começo ao fim, mas a emissora perdeu muitos telespectadores. Então, acabou contribuindo com o sucesso do SBT que colocou no ar duas novelas mexicanas, Carrossel e Rosa Selvagem.

Novelas dubladas tem um custo muito mais baixo do que uma produção nacional já que não precisa de cenários, de figurinos, de figurinistas, de equipe de produção... precisa basicamente do elenco e alguns outros poucos profissionais. E o que era para ser apenas um tapa-buraco na programação virou um fenômeno nacional sem precedentes. A história das crianças da Escola Mundial explodiu. Dos cinco pontos deixados por Brasileiras e Brasileiros, o horário ultrapassou os 20 pontos de audiência. Em vários dias, o Jornal Nacional, da Rede Globo, perdeu para o SBT.

A novela estreou no dia 20 de maio de 1991, foi produzida pela Televisa e exibida originalmente entre 1989 e 1990, no México. A trama conta as aventuras de uma turma de crianças da 2ª série do Ensino Fundamental da Escola Mundial com a carismática professora Helena, interpretada por Gabriela Rivero. Trata-se de uma versão da telenovela argentina Jacinta Pichimahuida la maestra que no se olvida, Jacinta Pchimahuida a professora que não se esquece, ou, a professora inesquecível, de 1966.

Carrossel, na verdade, conta uma das muitas versões televisivas baseadas nos personagens e nas histórias do dramaturgo Abel Santa Cruz que foram publicadas na revista Patoruzú nos anos 40, e que mais tarde foram compiladas em um livro chamado Cuentos de Jacinta Pichimahuida. Algumas passagens da trama foram inspiradas na própria infância do autor, e suas vivências escolares com vários de seus companheiros em uma escola primária. A professora Jacinta existiu de verdade, mas o nome foi alterado para que ela não fosse identificada, na televisão ganhou o nome de Helena.

Tais histórias foram adaptadas para uma radionovela em 1964, para uma telenovela em 1966, para dois filmes que passaram em 1974 e 1977, e um seriado de televisão em 1983, além de revistas de fotonovelas e quadrinhos. Essas produções ainda não eram chamadas de Carrossel, faziam referência direta ao livro. Depois, em 1992, a Televisa fez uma quarta versão que também passou no SBT em 1996, chamada Carrossel das Américas. Em 2002, foi produzida mais uma, adquirida por Silvio Santos, com o nome Viva às Crianças! - Carrossel 2, em 2003. E em 2012, tivemos a releitura brasileira.

A produção brasileira deu um bom resultado para o SBT com média de 13 pontos, no entanto, a original exibida em 1991 é a que obteve o maior índice de audiência. A média sempre ficava acima dos 20 e em algumas ocasiões chegou a marcar 30. Essa versão também foi exibida na Coreia com o título Coro de Anjos e o livro Cuentos de Jacinta Pichimahuida foi lançado no país com ilustrações nas mesmas características da novela de 1989.

No Brasil, o SBT lançou dois álbuns musicais, o primeiro mostra o elenco infantil e a professora Helena na capa, e tem 12 faixas com músicas do grupo Trem da Alegria, Mariane, Patricia Marx, Luane Vanessa e até Amado Batista. Alguns nomes não eram conhecidos como Laura e Grayce que eram cantoras de estúdio, ou seja, elas faziam coro, e produziam para outros artistas. Ambas gravaram as faixas Canção do Papai e Amiga Professora, respectivamente, para o disco da novela.

O mesmo aconteceu com o grupo Papyllon que era um projeto para colocar músicas em novelas e até tiveram um álbum próprio, mas não tiveram a mesma a visibilidade do Trem da Alegria, por exemplo. E outra intérprete nova nesse disco foi a Maria que cantou Varinha de Condão, lançada como cantora por Mara Maravilha. E a música tema de abertura foi do grupo Super Feliz.

O segundo álbum é uma compilação de canções de roda com coro de vozes que parece de crianças e a voz da professora Helena. Aproveitando o grande sucesso da novela, esses álbuns foram um meio a mais de o SBT levantar um bom dinheiro para o cofre da emissora. E o segundo álbum foi o mais rentável porque as canções são todas de domínio público, então não foi necessário pagar para usa-las. Praticamente todas as faixas foram reaproveitadas por Eliana em seus dois primeiros álbuns.

Carrossel deu tanta repercussão que a atriz Gabriela Rivero, a intérprete da professora Helena, fez uma visita no Brasil e foi recebida até pelo presidente Fernando Collor. Ela voltou em algumas outras ocasiões e em 2012 visitou os bastidores da versão brasileira de Carrossel. A mexicana foi cogitada para ser a grande estrela de A Fazenda 5 da Record.

No mesmo dia em que estreou Carrossel, em 20 de maio de 1991, estreou Rosa Selvagem, uma produção mexicana também. A sua exibição original aconteceu entre 1987 e 1988, no México. Foi inspirada nos romances La gata e La indomable de Inés Rodena, Verónica Castro e Guillermo Capetillo foram escalados para contar a trama da jovem humilde e rebelde que conquistou o coração de um homem rico e mudou de vida.

Rosa Selvagem ficou com a audiência um pouco abaixo de Carrossel, mas manteve o SBT no topo. E aproveitando o bom desempenho de audiência, a emissora produziu um álbum com a trilha sonora também. Esse álbum é maravilhoso, são 10 faixas com a atriz Veronica Castro na capa. Tem músicas do Fábio Jr, Rosana, Guilherme Arantes e Biafra.

Tem três cantores estrangeiros, o espanhol Julio Iglesias com a música Longe Demais De Você, o mexicano Emmanuel que faz um dueto com rosana na faixa Me Tira Do Rumo, e a mexicana Yuri que gravou Não Somos Iguais. Além de três novatos, um nem tanto. O Nill tinha sido integrante do grupo Dominó e se lançou em carreira solo gravou a música Amor do Futuro. O grupo Stryx gravou a música Nu De Corpo E Alma. E Sylvia Patricia teve a música Tempos Modernos que foi usada na abertura da novela.

O sucesso das novelas no SBT repercutiu no México também e gerou um certo ciuminho em Verónica Castro, a protagonista de Rosa Selvagem, então ela foi convidada a visitar o Brasil também e apareceu em alguns programas da televisão.

Carrossel durou 11 meses e Rosa Selvagem quatro, e antes do folhetim acabar o SBT estreou Simplesmente Maria que tinha passado originalmente entre 1989 e 1990, no México. Assim como Carrossel, foi baseada em uma trama Argentina de 1967 e já tinha ganhado uma versão brasileira na TV TupiEsse foi um truque do SBT para evitar a evasão dos telespectadores que a Globo copiou. Duas semanas antes do fim da novela, a nova entrou no ar, assim, quando uma chegou ao fim os telespectadores já estavam acostumados com a outra.

Victoria Ruffo e Jaime Garza e Manuel foram os protagonistas da trama. Ela era uma jovem descendente de indígenas, humilde e sonhadora, que decidiu deixar seu povoado e ir até a capital da Cidade do México para conseguir trabalho e melhores condições de vida e se apaixonou por Juan Carlos del Villar, um homem rico.

E Simplesmente Maria também ganhou um álbum músical com 12 faixas. Teve a atriz Victoria Ruffo na capa e contou com canções de Amado Batista, Silvio Brito, José Augusto, Feevers, e Joelma que tinha feito muito sucesso na época da Jovem Guarda. Teve também Luis Ricardo, o apresentador do Viva a Noite, que já tinha sido um intérprete do Bozo e na época atuava como júri nos programas do SBT. Além de Kátia Lee e Grupo Evva, que eram projetos para músicas de televisão.

Kátia até lançou um disco solo, mas nasceu com a proposta de gravar trilhas sonoras. Assim como Waldir Luz, que não fez muito sucesso como cantor, mas gravou e produziu para várias novelas e tem vários sucessos nas vozes de intérpretes famosos. Sertanejos, diga-se de passagem. Aliás, como estávamos em um período em que o sertanejo estava com uma roupagem mais pop, ganhou bastante espaço nas rádios e programas de televisão. No disco de Simplesmente Maria teve música da dupla Juanita e Richard, Donizeti e a música de abertura na voz de Johnny e Ringo.

Simplesmente Maria foi um pouco mais longa do que Rosa Selvagem, icou no ar durante seis meses e na soma das duas quase deu o mesmo tempo de exibição de Carrossel. Vieram outras depois que fizeram sucesso, mas essas três foram as grandes responsáveis por esse impulso, pela recuperação da audiência no horário nobre da emissora.

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O Dono Do Mundo

Depois de ter feito sucesso com Vale Tudo, em 1988, que questionava o jeitinho malandro daqueles que querem subir na vida a todo custo, Gilberto Braga elaborou o roteiro de O Dono Do Mundo para questionar a ética, os valores morais da sociedade, e escreveu para Antônio Fagundes o seu primeiro papel de vilão.

Cada capítulo começava com uma narração do que tinha acontecido no dia anterior, tinha cenas de um filme clássico do cinema internacional como vinheta, uma trilha sonora para ser colocada de fundo em festas de gente fina, mas o autor cometeu alguns excessos, pesou a mão. O Dono Do Mundo mostrava dois mundos muito distintos, um extremamente rico e outro extremamente pobre que não agradou. Além de tocar em um tema tabu.

O Dono do Mundo estreou no dia 20 de maio de 1991, no horário das 20h30, na TV Globo. Foi escrita por Gilberto Braga, teve direção geral de Dennis Carvalho e contou com a participação de Antônio Fagundes, Malu Mader, Fernanda Montenegro, Glória Pires, Kadu Moliterno, Ângelo Antônio, Letícia Sabatella e Nathalia Timberg nos papéis principais. A história gira em torno do personagem Felipe Barreto, interpretado por Antônio Fagundes, um cirurgião plástico muito mal caráter, que aposta com um amigo que levará para cama a noiva de um funcionário seu, antes de que ela tenha sua primeira noite com o marido.

A moça em questão é a Márcia, vivida por Malu Mader, que é professora. Seu noivo é o Walter, interpretado por Tadeu Aguiar, um funcionário da clínica de Felipe Barreto. O cirurgião leva o casal até o Canadá para que disfrutem da lua de mel, mas inventa uma série de problemas para o rapaz resolver e consegue seduzir a moça e ganhar a aposta ao fazer a jovem acreditar que o noivo está deixando ela sozinha propositalmente.

O autor tocou em um tema delicado, tabu, que é a perda da virgindade. Mesmo as cenas deixando claro quem é o vilão e quem é a vítima, e apesar dele ter manipulado toda a situação, o público rejeitou a atitude dela porque foi uma relação consensual.

A novela sofreu uma grande rejeição do público por outras razões também. O então prefeito da cidade de Barra Mansa, citada na novela, incentivou a população a enviar cartas de protesto a Rede Globo pela cidade ser retratada como um local acometido por verminoses e dengue. O Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas do Rio de Janeiro também se manifestou contra a personagem Vanda, interpretada por Lucinha Lins, que plantava notas falsas em colunas sociais. E vários cirurgiões reclamaram pela falta de ética do Felipe Barreto porque suas atitudes comprometiam a imagem desses profissionais.

Quanto Marcia, mesmo com a morte do seu noivo e o julgamento social que sofreu no folhetim, desmoralizada, espezinhada, não teve jeito, foi rejeitada. O público não aceitava as vitórias de Felipe Barreto, mas não acreditava que uma jovem bem formada e vivendo no Rio de Janeiro da década de 1990 fosse seduzida tão facilmente.

Em grupos de discussão, Marcia era considerada uma galinha, já ele, mesmo sendo um homem casado, foi perdoado, pois estava cumprindo o seu papel.

Gilberto Braga assumiu que pegou pesado, disse que os primeiros capítulos da novela foram os mais traumatizantes de tudo que já escreveu, mas culpou o público por não ter entendido a sua intenção. Disse que as pessoas de baixa renda não liam livros, não viam filmes de boa qualidade e eram incapazes de entender o enredo da novela e teve que fazer vários ajustes para recuperar a audiência.

Acho estranho que o público gostasse de Taís, uma prostituta de boate, adorasse a Olga, uma cafetina, e odiasse a heroína. Ele passou oito meses tentando fazer os telespectadores gostarem da Márcia e apoiarem o seu plano de vingança. A cena em que ela agride Felipe com um bisturi e vai parar na cadeia, foi uma das alterações no roteiro para que o público ficasse do lado dela.

Paralela a essa trama tinha o drama de Taís, personagem de Letícia Sabatella, que era vizinha de Márcia e que optou pela prostituição para ascender na vida. Ela e Guilherme, interpretado por Angelo Antonio, que era irmão de Márcia e conhecido como Beija-Flor, se envolveram amorosamente e ganharam mais a simpatia do público do que a própria protagonista. Graças ao carisma do personagem seu perfil foi modificado ao longo da história. Ele deixou de se envolver com marginais e de fazer surfe ferroviário, tornando-se uma pessoa honesta e íntegra. Suas ações inspiraram uma campanha sobre ética promovida pela Associação Brasileira de Marketing.

Teve uma reviravolta na novela, o cirurgião perdeu o direito de exercer sua profissão, perdeu status, foi ladeira abaixo, enquanto Marcia só ascendeu. E no final, quando parecia que tudo estava do jeito que o público esperava Marcia cede às conquistas de Felipe outra vez e ele se revela de verdade. Nunca tinha se regenerado, sempre foi o mesmo asqueroso desde o começo da novela.

A vinheta de abertura produzida por Hans Donner, mostrava a sobreposição de imagens de mulheres sensuais sobre o globo em uma antológica sequência do filme O Grande Ditador de Charles Chaplin com a música Querida, de Tom Jobim, ao fundo. Os direitos autorais de uso das imagens do filme demoraram para serem cedidos e com medo de não receber autorização até a estreia, a Globo gravou uma abertura alternativa com o modelo Beto Simas, mas a versão original foi liberada a tempo.

Hans Donner disse que o chefe da distribuidora, viu, por sorte, uma exposição dele em Londres e gostou do seu trabalho. A Globo costuma fazer algumas alterações para as novelas quando são vendidas para o exterior, devido a direitos autorais, isso acontece com a trilha sonora e com as vinhetas de aberturas. Para a versão de exportação de O Dono Do Mundo, uma terceira abertura foi produzida, sem as cenas de Chaplin.

A novela teve dois álbuns musicas. A trilha sonora nacional, com Gloria Pires na capa, teve 15 faixas. Se a novela foi pensada para um público mais culto, o disco também foi, as músicas que tiveram mais apelo comercial foram: Codinome Beija-Flor de Luiz Melodia, e Acontecimentos de Marina Lima.

O álbum com a trilha sonora internacional contou com o ator Ângelo Antônio na capa e foi mais apelativo comercialmente. Das 14 faixas, destacaram-se: Unforgettable de Natalie, I've Been Thinking About You de Londonbeat, I Love You de Vanilla Ice, Cry for Help de Rick Astley, Gonna Make You Sweat (Everybody Dance Now) de C & C Music Factory, e What's a Woman de Vaya Con Dios. Além de Sadeness do grupo Enigma que tinha sido usada na novela Vamp quando Natasha faz uma performance em uma praça em Veneza, na Itália. Foi usada só nesse momento, não entrou na trilha de Vamp.

Apesar de todas as polêmicas, a média geral de audiência foi de 43 pontos. A novela foi vendida para vários países, entre eles Bolívia, Canadá, Chile, Estados Unidos, Paraguai, Portugal, Turquia e Venezuela.


Curiosidades

Em O Dono do Mundo, pela primeira vez na teledramaturgia brasileira, foi descartado o usual processo de gravar as externas em frente a uma fachada, e as internas, em estúdio. Pelo menos para os personagens Lucas e Ester que tiveram uma casa cenográfica completa.

Daniella Perez, a filha de Glória Perez, teve seu primeiro papel de destaque, antes ela tinha feito pequenas participações em Kananga do Japão, na Rede Manchete, e Sexo dos Anjos e Barriga de Aluguel, na Globo.

O nome do personagem Beija-Flor foi uma homenagem ao cantor Cazuza, autor da música-tema do personagem, Codinome Beija-Flor. Entre as roupas do figurino do personagem, estava uma camiseta da Sociedade Viva Cazuza.

Antônio Fagundes estava no ar, simultaneamente, no seriado Mundo da Lua, exibido pela TV Cultura que teve um período de exibição na Globo também. Ele gravava de segunda a quarta a novela O Dono do Mundo, no Rio de Janeiro, e de quinta a sábado o seriado Mundo da lua, em São Paulo.

Teve duas duas cenas da novela que ficaram famosas pelo improviso dos atores. A primeira é durante uma conversa entre os personagens Olga de Fernanda Montenegro, William de Antonio Calloni, e Taís de Letícia Sabatella, quando a lâmpada do abajur explode e Fernanda Montenegro incorporou o acontecido na cena chamando a personagem Aracy que não estava presente. Você pode encontrar vídeos e textos dizendo que a personagem não existia e foi criada depois dessa cena, mas ela existia sim, era interpretada por Betty Erthal.

A segunda cena de improviso aconteaceu quando Constância, interpretada por Nathalia Timberg, estava conversando com Karina, personagem de Maria Padilha, que quase caiu ao se encostar no sofá.

A Golden Cross tirou proveito da fase em que o personagem Felipe Barreto era bonzinho para usa-lo como garoto propaganda, mas como ele se revelou que nunca deixou de ser um mal caráter, a empresa mudou o anúncio da campanha, lembrando que a vida não é novela.

Felipe Barreto foi citado na novela A Próxima Vítima, de Silvio de Abreu, exibida pela Globo em 1995. É ele quem faz uma cirurgia plástica em Isabela, personagem de Cláudia Ohana, que também era vilã e tem o rosto cortado pelo amante.

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