Em 1998, a TV Globo apresentou a minissérie Hilda Furacão com Ana Paula Arósio interpretando a personagem que abandona o noivo no altar e se refugia em um bordel tornando-se a mulher mais desejada do local, mas que se apaixona por um religioso. A personagem foi inspirada em Hilda Maia Valentim que nasceu em Recife, no dia 30 de dezembro de 1930.
Hilda migrou ainda muito pequena com a família para a capital mineira, no entanto, a história real se difere da ficção. Seus pais tinham um bom poder aquisitivo e Hilda era uma jovem de alma livre, ela queria desbravar os bairros boêmios da capital mineira e foi assim que se tornou famosa como Hilda Furacão. O apelido foi dado devido a sua reputação de mulher de temperamento impulsivo e da tendência a se envolver em brigas com clientes e colegas.
Frequentando a zona boêmia de Belo Horizonte, mais precisamente no Hotel Maravilhoso, na rua Guaicurus, ela conheceu o jogador do Atlético Mineiro, Paulo Valentim, com quem se casou no final da década de 1950, transformando-se assim na senhora Hilda Maia Valentim. Ou seja, ela não se envolveu com nenhum padre. Com Paulo, devido as suas transferências de clube de futebol, Hilda morou em Buenos Aires, em São Paulo, e na Cidade do México, sempre acompanhando o marido, que jogou no Boca Juniors, no São Paulo e no Atlante.
Após a aposentadoria do jogador, os dois fixaram residência em Buenos Aires e então as coisas começaram a desandar. Paulo se envolveu com jogos e álcool perdendo tudo o que tinha conquistado e, então, mudaram-se para o México onde Hilda tinha que trabalhar como faxineira e costureira para sustentar a casa.
Ela sempre foi fiel ao marido, que faleceu em 1984. E após a morte do filho de ambos, Hilda foi morar em um asilo no bairro de Barracas, em Buenos Aires onde faleceu no dia 29 de dezembro de 2014, na véspera do seu aniversário de 84 anos.
Em 1989, Aguinaldo Silva adaptou para a TV a obra de Jorge Amado sobre a vida de Tieta, uma cafetina que voltou a sua cidade natal e colocou a cidadezinha de pernas para o ar. Ninguém seguiu sua vida normal depois de travar contato com ela, nem mesmo sua irmã Perpétua que não sossegou enquanto não descobriu a verdadeira ocupação da irmã na capital. O verdadeiro nome de Tieta é Antonieta e Jorge Amado tomou conhecimento de sua história em 1974, quando esteve na cidade de Assis, em São Paulo, para visitar um primo que era médico na cidade.
Durante essa viagem, o escritor esteve na casa de Antonieta que já era uma famosa cafetina. Ela nasceu em Jaú, também em São Paulo, e foi para Assis para trabalhar como empregada doméstica, mas acabou se tornando uma (kenga) na casa de Antônia de Assis, que depois passou a ser sua maior concorrente.
Antonieta foi montando pequenas casas de mulheres até se tornar dona de um dos maiores bordéis do interior. Diferente da personagem da TV e do Cinema, ela era muito discreta e todas as moças que se vendiam queriam morar em sua casa porque eram todas bem tratadas. Os lucros vinham do bar e do aluguel dos quartos para os fregueses, o que cada moça cobrava pelo trabalho, era delas.
Elas tinham roupas diferentes para trabalhar, para ir à cidade, para ir à missa, ou para qualquer outra atividade. No trabalho na casa de Antonieta, a estratégia era fazer os homens beber o máximo possível e eles só podiam ficar no quarto por no máximo 20 minutos. As moças eram obrigadas a ir ao médico todos os meses e eram aconselhadas a que pensassem mais nelas mesmas.
A casa de Antonieta era frequentada por homens de todo o Estado e promovia shows com artistas respeitado, como Ângela Maria e Nélson Gonçalves. Olha o nível. Antonieta faleceu no dia 18 de setembro de 1994, e depois de sua morte, seus sobrinhos tentaram tocar o bordel, mas as casas acabaram mudando para fora da cidade e nunca mais foi a mesma coisa, apesar de a maneira de administrar os negócios ter sido preservada até os dias de hoje.
É bem provável que a inspiração da TV Globo para produzir Tieta como um folhetim das 20h30 tenha sido o sucesso da novela Beija da Rede Manchete, de 1986. O folhetim contou a história de Ana Jacinta de São José, baseada nos acontecimentos de sua vida, conhecida como Dona Beja na região.
Ana Jacinta nasceu no dia 2 de janeiro de 1800, em Formiga, uma capitania de Minas Gerais da época do Brasil Colônia. Ela ficou famosa pela influência que exercia na política e na sociedade de Araxá onde chegou com a mãe e o avô em 1805. Ela tinha uma beleza invejável e em 1815 foi raptada pelo ouvidor do rei, Joaquim Inácio Silveira da Motta, e levada a Paracatu.
Seu avô acabou sendo morto pelo governador enquanto tentava evitar seu sequestro. Ela viveu como refém e voltou ao Rio de Janeiro a pedido de Dom João VI, mas ao chegar em Araxá não foi recebida como vítima e sim como uma mulher sedutora de comportamento questionável que oferecia um grande risco aos valores éticos da época. Ela decidiu montar um bordel e o nomeou Chácara do Jatobá.
Em relação ao que aconteceu de fato com Beja é difícil afirmar com precisão porque tem versões distintas na internet. Em algumas delas diz que seus filhos, oriundos de agressões, eram três, dos quais um era menino. Mas em outros registros constam apenas duas meninas e a ordem dos pais, de acordo com a idade delas, também não coincidem.
Um desses registros, mais confiáveis, segundo o jornalista Pedro Divino Rosa, a primeira filha de Dona Beja nasceu do fruto de uma relação que ela teve com um padre, o Francisco José da Silva, que reconheceu a filha. Em relação a isso tem documento no Museu de Araxá.
Em 1853, Beja se mudou para Estrela do Sul, que na época era chamada Bagagem, para explorar garimpos de diamantes e, lá, participou ativamente da vida econômica e política local. Ela teve muita influência política na cidade e emprestou dinheiro para construir uma ponte sobre o Rio Bagagem para que a procissão da santa de sua devoção pudesse passar pela sua porta. E ao contrário da imagem de riqueza permanente, o fim da vida de Dona Beja foi marcado pela perda de patrimônio.
Ela faleceu em 20 de dezembro de 1873, de nefrite, uma inflamação nos rins que desencadeia uma série de outros problemas no corpo, com poucas posses. Foi enterrada em um caixão decorado com zinco, que pode ser o mesmo encontrado em junho de 2011 durante uma escavação para a construção de um chafariz, onde havia o antigo cemitério em Estrela do Sul.
Hoje em dia existe um museu em seu nome, o Museu Dona Beja situado em Araxá. E a novela da HBO Max não é a primeira releitura da obra de 1986, em 2010 foi feito um remake em espanhol pela Telefutura de Colômbia intitulado Doña Bella.
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