As novelas brasileiras ficaram famosas em muitos países, são vários que transmitem nossos folhetins já há muito tempo, de diversas maneiras. Uma das mais famosas e que mais influência exerceu no exterior foi A Escrava Isaura de 1976, estrelada por Lucélia Santos. Na China, passava apenas um capítulo por semana e tinha grande repercussão. Em Cuba, fez tanto sucesso que o governo de Fidel Castro determinou o cancelamento do racionamento planejado de energia elétrica durante o horário da novela. Na Rússia também deu o que falar, inclusive a palavra fazenda foi incorporada oficialmente ao vocabulário da população do país por influência do folhetim.
E A Escrava Isaura foi tão impactante que parou até uma guerra. Nos anos de 1990, durante os ataques entre Bósnia e Sérvia, ambos os países interromperam os combates para acompanhar a trama. Na hora da novela os soldados baixavam as armas para sentar diante da televisão.
Quando comparamos as nossas novelas com as estrangeiras que passam no Brasil um detalhe que chama muito a atenção é a falta de uma trilha sonora impactante. Quanto toca alguma coisa é uma música instrumental neutra, além dos nossos folhetins se estenderem por mais meses. Mas o que ignoramos é que nossas tramas, quando vendidas para o exterior, são compactadas e não têm a mesma trilha sonora que apresentam no Brasil. Isso porque tem muito merchandising e diversas cenas são criadas apenas para que seja usado uma música de fundo que servia para alavancar a venda dos álbuns musicais. Tem ainda as barrigas que as vezes se formam naquelas fases em que o diretor tem que esticar as situações para fechar os capítulos quando o autor atrasa os textos, ou mesmo quando o autor precisa fazer alterações a pedido da emissora.
Então, essas enrrolações, merchandising, e tudo o que é desnecessário, sai fora. As novelas ficam mais a cara de Dona Beja produzida pela HBO, ou Guerreiros do Sol e Todas As Flores da Globoplay, que são mais enxutas, dinâmicas, e mais curtas.
Em relação aos temas musicais, isso depende de algumas circustâncias. Para a emissora que produz uma novela e quer colocar música na trilha sonora, ela precisa de uma autorização prévia chamada licença de sincronização. A emissora paga uma taxa única para os donos dos direitos da música, é valor que se divide entre a gravadora que detém o fonograma e o intérprete da música. E outra taxa vai para a editora que é a empresa que paga o compositor pela autoria da letra e da melodia.
Não dá para sair usando música assim de qualquer jeito, porque a gravadora, o cantor e o compositor precisam receber. Então, toda vez que uma novela vai ao ar na TV aberta, na TV fechada ou no streaming, a emissora gera o direito de execução pública e precisa pagar ao Ecad, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, mesmo que seja reprise. O Ecad repassa 85% do valor que recebe para as associações de música, que distribuem o dinheiro aos artistas proporcionalmente ao número de vezes que a música tocou na novela. E o compositor é quem recebe a maior fatia desse repasse.
A Globo que é a maior produtora de telenovelas no Brasil criou um monte de selos discográficos, a mais importante usou o nome fantasia Som Livre, cuja razão social se chama SIGLA (Sistema Globo de Gravações Audiovisuais LTDA). Essa gravadora servia para lançar no mercado fonográfico os temas dos programas da emissora, dentre os quais, os discos das novelas eram bem rentáveis. O recordista de venda, que passou dos dois milhões de cópias foi o vollume 1 de O Rei do Gado.
Então, a Som Livre era a empresa responsável por negociar os fonogramas que a Globo usava nos folhetins. Muitas vezes as gravadoras aceitavam ceder seus artistas de graça em troca do seu nome aparecer no encarte do álbum e que o artista ganhasse exposição no horário nobre, então, o lucro vinha depois, com as vendas de shows e dos discos próprios daquele cantor. Essa tática não se limitava só aos cantores nacionais, as novelas projetaram muitos cantores internacionais no Brasil.
Mas a Madonna não concordou com isso não, e deu um baita prejuízo para a Globo. Não foi exatamente um prejuízo, mas a emissora perdeu um dinheirão porque colocou a música Crazy For You na trilha internacional da novela A Gata Comeu, em 1985, com autorização da representante da Warner no Brasil. Só depois de o disco já ter sido colocado nas lojas a matriz da gravadora, nos Estados Unidos, ficou sabendo e disse que não podia, que o contrato da rainha do pop não permitia esse tipo de coisa, então, tiveram que recolher os LPs e trocar a faixa por Smooth Operator da cantora Sade.
Bom, a Som Livre negociava o uso das músicas só no Brasil, então, a Globo começou a fazer parcerias com as gravadoras internacionais para conseguir mais opções para os discos das suas novelas e já aproveitava para ganhar um dinheirinho lançando os discos dos artistas estrangeiros no Brasil, além de lançar parte do seu casting no exterior. Teve o selo Globo Columbia que era uma parceria da Globo com a Sony Music, a dona da marca Columbia na época.
Teve o selo Globo Polydor que era uma parceria da Globo com a Polydor Records.
Teve o selo Globo Records que era uma parceria com a RCA Records.
E o selo Globo Discos que operava somente no Brasil e nasceu com o intuíto de lançar coletâneas, trilhas internacionais alternativas e karokes, como foi o caso do Karaokê da Xuxa, mas durou apenas quatro meses, de agosto a dezembro de 1987.
Através da Globo Records a emissora comercializava as trilhas sonoras da teledramaturgia e dos seus artistas no mercado internacional. No entanto, nem todas as músicas que estavam nos discos do Brasil eram liberadas para o mercado internacional. Como nem sempre havia acordo entre as gravadoras, ou entre os artistas, a Globo também fazia muitas músicas encomendadas especialmente para as novelas.
Isso facilitava a liberação da música para o exterior e também no sentido inverso. Ou seja, tal como aconteceu com a música da Madonna no disco de A Gata Comeu, nem sempre a Som Livre recebia autorização para usar as músicas que queria, ou tinha que pagar muito caro pelo fonograma, então, era muito comum que cantores brasileiros gravassem em inglês e usassem outros nomes para que não fossem identificados. O Tiago Iorc, antes de ficar famoso no Brasil, gravou várias músicas internacionais para novelas da Globo.
Além disso, em todos os discos sempre tinham algumas faixas que eram feitas exclusivamente para a novela, geralmente as instrumentais, mas teve disco que foi 100% original. Foi o caso de O Bem-Amado, de 1973, e Cambalacho de 1987.
A novela Que Rei Sou Eu, de 1989, entrou na lista dos folhetins que teve quase todas as faixas originais, a maioria foi composta para a trama.
Obviamente as emissoras querem faturar quando vendem suas novelas para o exterior, e como os custos para liberar uma música em nível mundial são extremamente altos, os contratos com as gravadoras são específicos para o Brasil. Então, é mais vantajoso que as músicas da trilha sonora sejam retiradas ou substituídas na edição internacional por canções instrumentais genéricas.
E com a expansão do streaming os acordos para uso de músicas nas novelas precisaram ser revisados, talvez por isso as novelas diminuiram bastante suas trilhas. Tudo precisa passar por mais filtros e as novelas estão tomando ares de séries.












Nenhum comentário:
Postar um comentário