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O Dono Do Mundo

Depois de ter feito sucesso com Vale Tudo, em 1988, que questionava o jeitinho malandro daqueles que querem subir na vida a todo custo, Gilberto Braga elaborou o roteiro de O Dono Do Mundo para questionar a ética, os valores morais da sociedade, e escreveu para Antônio Fagundes o seu primeiro papel de vilão.

Cada capítulo começava com uma narração do que tinha acontecido no dia anterior, tinha cenas de um filme clássico do cinema internacional como vinheta, uma trilha sonora para ser colocada de fundo em festas de gente fina, mas o autor cometeu alguns excessos, pesou a mão. O Dono Do Mundo mostrava dois mundos muito distintos, um extremamente rico e outro extremamente pobre que não agradou. Além de tocar em um tema tabu.

O Dono do Mundo estreou no dia 20 de maio de 1991, no horário das 20h30, na TV Globo. Foi escrita por Gilberto Braga, teve direção geral de Dennis Carvalho e contou com a participação de Antônio Fagundes, Malu Mader, Fernanda Montenegro, Glória Pires, Kadu Moliterno, Ângelo Antônio, Letícia Sabatella e Nathalia Timberg nos papéis principais. A história gira em torno do personagem Felipe Barreto, interpretado por Antônio Fagundes, um cirurgião plástico muito mal caráter, que aposta com um amigo que levará para cama a noiva de um funcionário seu, antes de que ela tenha sua primeira noite com o marido.

A moça em questão é a Márcia, vivida por Malu Mader, que é professora. Seu noivo é o Walter, interpretado por Tadeu Aguiar, um funcionário da clínica de Felipe Barreto. O cirurgião leva o casal até o Canadá para que disfrutem da lua de mel, mas inventa uma série de problemas para o rapaz resolver e consegue seduzir a moça e ganhar a aposta ao fazer a jovem acreditar que o noivo está deixando ela sozinha propositalmente.

O autor tocou em um tema delicado, tabu, que é a perda da virgindade. Mesmo as cenas deixando claro quem é o vilão e quem é a vítima, e apesar dele ter manipulado toda a situação, o público rejeitou a atitude dela porque foi uma relação consensual.

A novela sofreu uma grande rejeição do público por outras razões também. O então prefeito da cidade de Barra Mansa, citada na novela, incentivou a população a enviar cartas de protesto a Rede Globo pela cidade ser retratada como um local acometido por verminoses e dengue. O Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas do Rio de Janeiro também se manifestou contra a personagem Vanda, interpretada por Lucinha Lins, que plantava notas falsas em colunas sociais. E vários cirurgiões reclamaram pela falta de ética do Felipe Barreto porque suas atitudes comprometiam a imagem desses profissionais.

Quanto Marcia, mesmo com a morte do seu noivo e o julgamento social que sofreu no folhetim, desmoralizada, espezinhada, não teve jeito, foi rejeitada. O público não aceitava as vitórias de Felipe Barreto, mas não acreditava que uma jovem bem formada e vivendo no Rio de Janeiro da década de 1990 fosse seduzida tão facilmente.

Em grupos de discussão, Marcia era considerada uma galinha, já ele, mesmo sendo um homem casado, foi perdoado, pois estava cumprindo o seu papel.

Gilberto Braga assumiu que pegou pesado, disse que os primeiros capítulos da novela foram os mais traumatizantes de tudo que já escreveu, mas culpou o público por não ter entendido a sua intenção. Disse que as pessoas de baixa renda não liam livros, não viam filmes de boa qualidade e eram incapazes de entender o enredo da novela e teve que fazer vários ajustes para recuperar a audiência.

Acho estranho que o público gostasse de Taís, uma prostituta de boate, adorasse a Olga, uma cafetina, e odiasse a heroína. Ele passou oito meses tentando fazer os telespectadores gostarem da Márcia e apoiarem o seu plano de vingança. A cena em que ela agride Felipe com um bisturi e vai parar na cadeia, foi uma das alterações no roteiro para que o público ficasse do lado dela.

Paralela a essa trama tinha o drama de Taís, personagem de Letícia Sabatella, que era vizinha de Márcia e que optou pela prostituição para ascender na vida. Ela e Guilherme, interpretado por Angelo Antonio, que era irmão de Márcia e conhecido como Beija-Flor, se envolveram amorosamente e ganharam mais a simpatia do público do que a própria protagonista. Graças ao carisma do personagem seu perfil foi modificado ao longo da história. Ele deixou de se envolver com marginais e de fazer surfe ferroviário, tornando-se uma pessoa honesta e íntegra. Suas ações inspiraram uma campanha sobre ética promovida pela Associação Brasileira de Marketing.

Teve uma reviravolta na novela, o cirurgião perdeu o direito de exercer sua profissão, perdeu status, foi ladeira abaixo, enquanto Marcia só ascendeu. E no final, quando parecia que tudo estava do jeito que o público esperava Marcia cede às conquistas de Felipe outra vez e ele se revela de verdade. Nunca tinha se regenerado, sempre foi o mesmo asqueroso desde o começo da novela.

A vinheta de abertura produzida por Hans Donner, mostrava a sobreposição de imagens de mulheres sensuais sobre o globo em uma antológica sequência do filme O Grande Ditador de Charles Chaplin com a música Querida, de Tom Jobim, ao fundo. Os direitos autorais de uso das imagens do filme demoraram para serem cedidos e com medo de não receber autorização até a estreia, a Globo gravou uma abertura alternativa com o modelo Beto Simas, mas a versão original foi liberada a tempo.

Hans Donner disse que o chefe da distribuidora, viu, por sorte, uma exposição dele em Londres e gostou do seu trabalho. A Globo costuma fazer algumas alterações para as novelas quando são vendidas para o exterior, devido a direitos autorais, isso acontece com a trilha sonora e com as vinhetas de aberturas. Para a versão de exportação de O Dono Do Mundo, uma terceira abertura foi produzida, sem as cenas de Chaplin.

A novela teve dois álbuns musicas. A trilha sonora nacional, com Gloria Pires na capa, teve 15 faixas. Se a novela foi pensada para um público mais culto, o disco também foi, as músicas que tiveram mais apelo comercial foram: Codinome Beija-Flor de Luiz Melodia, e Acontecimentos de Marina Lima.

O álbum com a trilha sonora internacional contou com o ator Ângelo Antônio na capa e foi mais apelativo comercialmente. Das 14 faixas, destacaram-se: Unforgettable de Natalie, I've Been Thinking About You de Londonbeat, I Love You de Vanilla Ice, Cry for Help de Rick Astley, Gonna Make You Sweat (Everybody Dance Now) de C & C Music Factory, e What's a Woman de Vaya Con Dios. Além de Sadeness do grupo Enigma que tinha sido usada na novela Vamp quando Natasha faz uma performance em uma praça em Veneza, na Itália. Foi usada só nesse momento, não entrou na trilha de Vamp.

Apesar de todas as polêmicas, a média geral de audiência foi de 43 pontos. A novela foi vendida para vários países, entre eles Bolívia, Canadá, Chile, Estados Unidos, Paraguai, Portugal, Turquia e Venezuela.


Curiosidades

Em O Dono do Mundo, pela primeira vez na teledramaturgia brasileira, foi descartado o usual processo de gravar as externas em frente a uma fachada, e as internas, em estúdio. Pelo menos para os personagens Lucas e Ester que tiveram uma casa cenográfica completa.

Daniella Perez, a filha de Glória Perez, teve seu primeiro papel de destaque, antes ela tinha feito pequenas participações em Kananga do Japão, na Rede Manchete, e Sexo dos Anjos e Barriga de Aluguel, na Globo.

O nome do personagem Beija-Flor foi uma homenagem ao cantor Cazuza, autor da música-tema do personagem, Codinome Beija-Flor. Entre as roupas do figurino do personagem, estava uma camiseta da Sociedade Viva Cazuza.

Antônio Fagundes estava no ar, simultaneamente, no seriado Mundo da Lua, exibido pela TV Cultura que teve um período de exibição na Globo também. Ele gravava de segunda a quarta a novela O Dono do Mundo, no Rio de Janeiro, e de quinta a sábado o seriado Mundo da lua, em São Paulo.

Teve duas duas cenas da novela que ficaram famosas pelo improviso dos atores. A primeira é durante uma conversa entre os personagens Olga de Fernanda Montenegro, William de Antonio Calloni, e Taís de Letícia Sabatella, quando a lâmpada do abajur explode e Fernanda Montenegro incorporou o acontecido na cena chamando a personagem Aracy que não estava presente. Você pode encontrar vídeos e textos dizendo que a personagem não existia e foi criada depois dessa cena, mas ela existia sim, era interpretada por Betty Erthal.

A segunda cena de improviso aconteaceu quando Constância, interpretada por Nathalia Timberg, estava conversando com Karina, personagem de Maria Padilha, que quase caiu ao se encostar no sofá.

A Golden Cross tirou proveito da fase em que o personagem Felipe Barreto era bonzinho para usa-lo como garoto propaganda, mas como ele se revelou que nunca deixou de ser um mal caráter, a empresa mudou o anúncio da campanha, lembrando que a vida não é novela.

Felipe Barreto foi citado na novela A Próxima Vítima, de Silvio de Abreu, exibida pela Globo em 1995. É ele quem faz uma cirurgia plástica em Isabela, personagem de Cláudia Ohana, que também era vilã e tem o rosto cortado pelo amante.

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