Assista aqui

Últimas postagens

A primeira e o fim das cidades cenográficas

Você consegue imaginar que até 1995, quando a Globo inaugurou o complexo de estúdios que era conhecido como PROJAC, a emissora dependia de terceiros para gravar suas novelas? Aliás, até os programas da casa mesmo, a TV Colosso foi gravada em vários centros, dentre eles o Renato Aragão, o Tycoon, o Cinédia e o Herbert Richers.

Os Estúdios Renato Aragão foram vendidos para a Record em 2005, que passou a chamá-los de RecNov, Record Novelas, e depois, em 2015, a emissora alugou para a produtora Casablanca para terceirizar suas produções a fim de economizar dinheiro, mas passado o prazo do contrato, tomou de novo, colocou outras empresas no local e utiliza o complexo também para jornalismo. E lá, quando pertencia ao Renato Aragão, a Globo produziu bastante conteúdo para o seu canal, foi um dos locais onde a Globo utilizou para gravar novelas.

As cidades cenográficas da Globo eram construídas em distintos lugares, a produção era deslocada para onde houvesse disponibilidade, fosse mais barato, ou que tivesse um grande espaço. Mas também, muitas vezes, em vez de construir cidades inteiras do zero a emissora utilizava cidades históricas e distritos reais do interior adaptando fachadas para ajustar o visual a trama. E nessa fase, sem um complexo de estúdio para chamar de seu, as produções chegaram a ser distribuidas em mais de 40 endereços diferentes espalhados pela cidade do Rio de Janeiro, incluindo a fábrica de cenários e as oficinas.

A primeira cidade cenográfica da nossa televisão foi construída em 1966 para a novela Redenção da TV Excelsior, a cidade fictícia se chamava Redenção. A novela ficou no ar durante dois anos e sete meses e tinha sido pensada para ter 100 capítulos apenas. A cidade de Redenção foi construída em São Bernardo do Campo, em São Paulo, nos fundos dos antigos Estúdios Vera Cruz, em uma área de bosque municipal. Após o fim da novela, em 1968, o espaço foi transformado na Cidade da Criança, o primeiro parque temático do Brasil.

Já a primeira cidade cenográfica da Globo foi construída em 1970 para a novela Irmãos Coragem. A fictícia Coroado foi construída na Barra da Tijuca, na zona Oeste do Rio de Janeiro onde, mais tarde, foi erguido o Barra Shopping.

Até o final dos anos 80 a globo alugava terrenos, pois o espaço onde hoje é conhecido como Estúdios globo só foi adquirido por volta de 1987, 1988... Até então, muitas novelas nem tiveram cidades cenográficas e as cenas externas foram gravadas em bairros de verdade o que dava até mais realismo a trama, um exemplo é A Gata Comeu, de 1985, que usou város pontos do bairro da Urca como locações.

A primeira cidade cenográfica construída no terreno do PROJAC foi a fictícia Avilan para a novela ¿Que Rei Sou Eu?, de 1989. Eram 2.200m2 de área construída com o palácio de Avilan e mais 14 casas que compunham a vila. A maior atração era o castelo que tinha 30m de fachada e uma torre de 26m de altura e na parte interna tinha a sala do trono que era bem grande, e duas fontes, entre outras coisas. Ou seja, não era só a fachada.

E além do calor que fazia, os atores e figurantes usavam roupa de época, o que aumentava a sensação térmica, então precisavam parar as gravações muitas vezes para secar o suor e também porque apareciam sapos. Imagino que os coitados foram dizimados do local.

Mas mesmo depois de o PROJAC oferecer condições para as construções de várias cidades ou bairros cenográficos, algumas novelas usaram bairros de verdade. Manoel Carlos, por exemplo, sempre escrevia tramas que se passavam no Leblon, as novelas Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, e Viver a Vida não tinham cidades cenográficas, pelo menos não para o núcleo principal.

A descoberta de que construir uma cidade de mentirinha era mais barato para uma emissora de televisão aconteceu com a TV Excelsior que, aliás, moldou a nossa televisão, como a criação da programação vertical e linear, antes os canais tinham uma grade bem aleatória e a Globo bebeu muito da sua fonte para ser o que é hoje. E a Manchete foi a pioneira em centralizar toda a produção do canal, em 1985 a emissora inaugurou o complexo de Água Grande, no Rio de Janeiro.

A Globo só inaugurou em o seu complexo 10 anos depois, em 1995. Inicialmente chamado de PROJAC (Projeto Jacaré Paguá) e depois alterado para Estúdios Globo.

O estreou seu complexo de estúdios em 1996, chamado de CDT da Anhanguera (Centro De Televisão), e alterou para Complexo GSS em 2026 (Complexo Grupo Silvio Santos).


E a Record inaugurou seu complexo em 2005 quando comprou e ampliou os Estúdios Renato Aragão.

Agora o assunto é outro, desde a criação da Inteligência Artificial esses enormes terrenos e as megas construções das cidades fictícias são desnecessárias. Tudo por ser gravado em estúdio e finalizado por computador. Em dezembro de 2024 a Globo inaugurou um estúdio de Produção Virtual, é o maior estúdio permanente de Produção Virtual da América Latina com painéis de LED, sincronizados com iluminação, câmera e projeções em realidade aumentada, sem depender de fundo verde.

Uma das cenas iniciais da novela Volta por Cima, o ônibus que sofreu um acidente, foi criada totalmente com a tecnologia de produção virtual. Foram 15 páginas de roteiro gravadas em um dia que rendeu uma economia de duas diárias, sem falar que a produção não ficou presa ao clima e ao tempo de filmagem no centro do Rio. E assim, aos poucos, a emissora está fazendo uso dessa tecnologia para testar a percepção e aceitação dos telespectadores. Se não houver rejeição, as cidades cenográficas podem ser aposentadas totalmente.

Isso pode mudar bastante a cara das novelas, porque várias delas são meio parecidas. A razão é que as cidades cenográficas não são totalmente desmontadas para que outra seja levantada no local, elas são só adaptadas. Muda-se uma coisa aqui, outra ali, mas a estrutura é a mesma e também limita o desenrolar das histórias. Todas as coisas acontecem no mesmo lugar, todos os personagens se encontram na mesma rua...

Com os estúdios gigantes, os painéis de led de alta definição e a Inteligência Artificial fazendo tudo parecer cada vez mais real, cada novela pode ter uma ambientação única com o mínimo de cenário fixo, mas sem limites para a imaginação do autor. O curioso é que os estúdios de cinema dos Estados Unidos usam muito esse recurso. No filme do Batman com o Robert Pattinson foi utilizado o telão de led em algumas cenas, mas ainda gravam os atores interagindo com bonecos verdes, ou em ambientes em que só tem alguns elementos físicos e o resto é tudo fundo neutro vazio.

O led invadiu os palcos dos grandes concertos, depois os estúdios dos programas de auditório e agora chegou nas novelas.

Para assistir a este conteúdo, clique na imagem abaixo:

Nenhum comentário: