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Loading TV

Para entender como surgiu a Loading TV, temos que relembrar das suas antecedentes que ocuparam a mesma sintonia na rede aberta de televisão. A primeira é a MTV Brasil que pertenceu ao Grupo Abril, a concessão foi outorgada em 1985 e o canal entrou em operação em 1990. As emissoras de canais abertos da nossa televisão precisam renovar a concessão a cada 15 anos, mas existe uma margem de telerância caso esse processo se atrase. A renovação do Grupo Abril aconteceu em 2002, então, legalmente, a empresa poderia usar o sinal por mais quinze anos, ou seja, até 2017.

No entanto, a MTV Brasil saiu do ar em 2013, e a partir daquele ano o canal passou a ocupar a grade da televisão por assinatura sob a administração da própria Viacom International Media Networks, a empresa estados-unidenses dona da marca. Para manter a concessão, o Grupo Abril colocou no ar, no mesmo sinal que era da MTV Brasil, o canal Ideal TV.

A Ideal TV foi criada pelo Grupo Abril, em outubro de 2007, como um canal de TV por assinatura. Sua programação era voltada para o mundo corporativo com conteúdos sobre empreendedorismo, carreira, economia e gestão, mas durou menos de dois anos, pois como teve baixa adesão pelas operadoras de TVs pagas, teve suas transmissões encerradas em julho de 2009. E quando a MTV Brasil saiu do ar em outubro de 2013, o canal voltou. Ou melhor, o conteúdo que tinha sido produzido para o serviço pago passou a ser reprisado no sinal aberto.

Ainda em 2013, mais precisamente em dezembro daquele ano, o Grupo Abril deu início ao processo de venda da concessão e da estrutura física da MTV Brasil e tudo aconteceu rapidamente. Em dois dias, no dia 20, a primeira parcela foi paga por José Roberto Maluf, proprietário da agência de publicidade Spring Comunicação. Em junho de 2014, os irmãos José Roberto Garcia e Paulo Sérgio Garcia, proprietários da Kalunga, uma rede de lojas especializada em comércio de materiais de papelaria e eletrônicos, tornaram-se sócios de Maluf.

Grande parte da programação da Ideal TV passou a ser arrendada para igrejas, especialmente a Igreja Mundial do Poder de Deus, além de alguns boletins informativos e isso durou até o final de 2020, mas desde dezembro de 2017, quando a concessão do Grupo Abril expirou, Maluf vendeu sua parte para os irmãos Garcia, então o controle do canal passou a ser apenas da Kalunga que foi a idealizadora do canal Loading.

A ideia inicial era fazer um canal com foco em cinema, música, entretenimento e o mundo das celebridades aos moldes do canal E!. Mas, ao longo dos anos, a ideia foi amadurecendo e chegaram a conclusão que o projeto ideal seria um canal de entretenimento com enfoque aos públicos geek, otaku e gamer, com conteúdos de cultura pop, esports, séries, filmes, animes, tokusatsu, dentre outros. Por isso o nome Loading, que se adequava bem a proposta.

Acontece, porém, que a negociação da concessão do Grupo Abril com a Spring foi realizada sem a participação da União. Ou seja, sem que tenham comunicado o Órgão Governamental responsável pelas concessões de Rádio e Televisão. Então, em dezembro de 2015, o Ministério Público Federal entrou com uma ação contestando judicialmente a venda e em novembro de 2020 o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, responsável pelos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, anulou a transferência das concessões da Abril para a Spring por entender que ela ocorreu sem a autorização prévia do Poder Executivo.

Mas para evitar a interrupção imediata das transmissões do canal, a empresa obteve uma liminar, suspendendo os efeitos práticos dessa decisão enquanto o recurso era analisado e no mês seguinte começaram os testes da nova emissora que entrou no ar em alguns momentos gerando curiosidade e expectativa no público. No dia 7 de dezembro, às 20h28, após a pré-estreia de um episódio de Transformers: Cyberverse, o personagem Mr. 52X apareceu se despedindo dos telespectadores com um discurso oferecendo o canal à disposição do público.

Em seguida teve uma contagem regressiva com as atrações da emissora, que durou dois minutos, antes do programa Multiverso, que abriu definitivamente as transmissões do canal ocupando o sinal da Ideal TV que continuou operando na parabólica analógica, desde então.

Em janeiro de 2021, um relatório do Kantar IBOPE mostrou que a Loading havia alcançado 10 milhões de telespectadores no período entre 8 de dezembro e 4 de janeiro, conquistando também grande repercussão nas redes sociais. Na Região Metropolitana de São Paulo, o canal cresceu 134% na audiência em sua primeira semana no ar, sendo maior parte da contribuição do público jovem entre 25 e 34 anos. Em alguns horários a Loading ganhou de emissoras tradicionais da cidade de São Paulo como a Rede Brasil, Gazeta, Cultura, RedeTV! e Band.

A Loading tinha tudo para dar certo, acreditou que sim e vendeu essa ideia para o público. A emissora fechou acordo para transmitir com exclusividade a Liga Brasileira de Free Fire, um jogo eletrênico, exibiu uma premiação mundial de animes ao vivo, anunciou séries de anime, e expôs um plano de expansão para aumentar a cobertura do canal em todo o Brasil firmando acordos com a Oi, Vivo, Sky e Claro.

Mas, nem tudo ia tão bem quanto parecia porque em menos de uma semana após a estreia, a Loading passou pela sua primeira crise interna com o desligamento de toda a sua equipe de esportes que, segundo os profissionais desligados, teriam sido censurados por apresentarem matérias de cunho investigativo e a direção preferir transmitir apenas temas alegres, sem assuntos polêmicos. Como eles não tinham liberdade de expressão, a equipe composta por 12 profissionais, concordaram em conjunto que pediriam demissão, mas foram demitidos antes.

Porém, uma reportagem publicada pelo portal Splash apurou que a Loading ainda não tinha assinado contrato com os profissionais demitidos e com outros que ainda estavam na emissora e a empresa tentou realizar as assinaturas dos contratos, às pressas, para que a rescisão fosse oficializada, o que foi recusado. E os problemas não pararam por aí, os profissionais relataram que tiveram dificuldades na produção de material porque os equipamentos eram antigos, os mesmos que tinham sido usados pela MTV Brasil com tecnologia ultrapassada. Em solidariedade à equipe de jornalistas, os narradores da Liga Loading de Esports também anunciaram demissão.

Apesar disso, a audiência do canal continuava subindo e foi lançada uma nova programação, mas no dia da estreia da Fase 2, em 15 de março de 2021, devido às restrições de circulação em São Paulo pelo aumento de casos da COVID-19, todos os programas da emissora passaram a ser produzidos via home office e dois meses depois a emissora anunciou a demissão de vários funcionários, incluindo apresentadores, diretores e produtores, encerrando a exibição de programas ao vivo em menos de seis meses no ar.

A razão de tal decisão teria sido a desistência da Kalunga em investir no canal já que a empresa passava por uma grave crise financeira, com dívidas perto dos 500 milhões de reais. Mas tinha outros anunciantes, como a Motorola, Havaianas, Cacau Show... que não foram levadas em consideração. O canal cancelou programas e passou a exibir apenas reprises de séries e animes pegando todo mundo de surpresa, desde o público até os apresentadores que foram demitidos.

Os ex-funcionários do canal publicaram mensagens de agradecimento ao público e expuseram algumas situações dos bastidores da emissora. Eles foram bloqueados na internet pelo CEO da Loading, assim como parte da imprensa também, por questionar as demissões em massa. Depois, a conta no Twitter foi desativada devido a pressão do público em relação ao fim da produção ao vivo do canal. Ou seja, não houve um posicionamento da emissora em relação a mudança da grade, mas chegou a ser especulado um possível arrendamento de horário para a Igreja Universal do Reino de Deus, o que não aconteceu. Até o Grupo Jovem Pan teria entrado em negociações para colocar o canal de notícias no ar.

Em 16 de agosto de 2021, o Nexo Jornal publicou uma reportagem de autoria do jornalista Cesar Gaglioni, relatando os problemas trabalhistas que os funcionários sofreram na empresa, como falta de contrato, vale-refeição com valor diário baixo, burnout e até mesmo ofertas de vantagens a clientes por parte do diretor comercial do canal. Três dias depois, foi dada a sentença final de cassação das concessões da Abril e da Spring Televisão S.A. e de devolução da outorga ao Ministério das Comunicações.

Como existe um abismo entre a decisão judicial e a execução prática, a Loading se manteve no ar até o fim do ano. Em 26 de novembro foi inserida uma nota de rodapé na transmissão informando que sua programação seria substituída pelos conteúdos da Rede Mundial, emitidos pela Ideal TV, que voltaria a seus canais abertos e, dois dias depois, o sinal foi interrompido à meia-noite, ressuscitando pela segunda vez a Ideal TV.

E assim foi o fim da Loading que tinha ocupado o posto de oitavo canal mais assistido na TV aberta em 2021, superando emissoras como a Record News e a TV Aparecida. Os trâmites judiciais seguiram em curso e em 2024 as partes chegaram a um acordo homologado pela Justiça. Dentre multas e indenizações das empresas envolvidas nesse imbróglio, a Kalunga foi oficialmente legalizada para explorar a concessão do canal e lançou em agosto de 2025 o canal Xsports.

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