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Xica da Silva

No ano de 1996, a Rede Manchete apresentou uma das suas melhores telenovelas que gerou enorme repercussão no Brasil e foi vendida para vários países. A trama é cheia de curiosidades e de artifícios que só a Manchete permitia nas suas produções e o mais interessante é que foi baseada em uma personagem real?

A personagem em questão se chamava Francisca da Silva de Oliveira, daí o nome que ficou conhecido como Chica, mas com CH. Ela nasceu na Comarca do Serro Frio, pertencente a Capitania de Minas Gerais, em 1732. Era filha de Antônio Caetano de Sá que ocupava o cargo de capitão das ordenanças de Bocaina, Três Cruzes e Itatiaia, distritos de Vila Rica, ou seja, o cara ocupava uma posição de distinção e honra na sociedade. Mas Chica herdou a condição de escrava da sua mãe, a Maria da Costa que foi trazida da África para o Brasil ainda criança, por volta de 1720.

O sobrenome Silva era adotado normalmente por pessoas sem procedência ou origem definida. No caso da Chica é uma prova que ela conquistou sua liberdade por conta própria, sem apadrinhamentos ou conexões, mesmo tendo tido um pai influente.

Embora ela tenha nascido e sido batizada na região do Serro, Chica da Silva viveu a maior parte de sua vida adulta no Arraial do Tijuco, atual cidade de Diamantina, onde conheceu o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira que chegou em 1753. Ele comprou a Chica do seu antigo dono, no ano seguinte lhe concedeu a alforria, ou seja, a liberdade, ela deixou de ser escrava, e os dois passaram a viver juntos. Essa relação durou 15 anos e ambos tiveram teve treze filhos, todos registrados no batismo como filhos dele. Chica já tinha um filho com seu antigo proprietário, antes de conhecer João Fernandes.

Com exceção do registro de paternidade, essa união consensual de um homem branco com uma escrava era comum. O que fez Chica ficar muito conhecida é que João Fernandes era o homem mais rico de todo o Império Português e os dois tiveram uma relação pública, intensa e duradoura. Ficaram juntos até 1770, quando ele precisou ir a Portugal, para receber os bens deixados em testamento pelo pai e levou alguns dos seus filhos homens que receberam educação superior e ocuparam postos importantes na administração do Reino e até mesmo receberam títulos de nobreza.

Chica ficou no Arraial com o filho mais novo, rica, e teve uma vida confortável. As filhas mulheres também ficaram e receberam a melhor educação que se dava às moças da aristocracia local. Ou seja, ela alcançou prestígio na sociedade local e usufruiu das regalias privativas das senhoras brancas. Ela faleceu no dia 15 de fevereiro de 1796, aos 64 anos de idade e foi sepultada dentro da igreja de de São Francisco de Assis, um direito que tinha como membro das irmandades a que pertencia e mantinha com doações.

Em 1963, Xica da Silva virou enredo de escola de samba e o impacto foi tão vasto que inspirou o diretor Cacá Diegues a produzir um filme. Ele se baseou no livro de João Felício dos Santos, cuja grafia é com X, e levou a história para os cinemas em 1976, com Zezé Motta e Walmor Chagas nos papéis principais, além de contar com Elke Maravilha, Stepan Nercessian e José Wilker no elenco, entre outros vários atores.

A telenovela Xica da Silva Contou com direção geral de Walter Avancini e foi baseada nos romances Chica que Manda, de Agripa Vasconcellos, e Xica da Silva, de João Felício dos Santos. Foi escrita por Walcyr Carrasco sob o codinome de Adamo Angel. Ele não podia usar seu nome verdadeiro porque era contratado do SBT onde atuava como consultor de teledramaturgia.

Walcyr tinha escrito Cortina de Vidro para o SBT, em 1989, a novela que fez a Globo alterar o contrato com seus artistas. Até então, os atores tinham liberdade de fazer trabalhos com produtoras independentes e vários deles atuaram em Cortina de Vidro porque a novela foi feita pela Art Vídeos Produções e pela Miksom, o SBT não teve custo nenhum, só colocou a novela no ar e ainda embolsou parte da publicidade vendida nos intervalos. Como a Globo não gostou de ver seus atores na concorrente, elaborou um contrato de exclusividade com todos os seus contratados.

E depois disso, Walcyr ainda escreveu para a Rede Manchete, em 1991, as minisséries Filho Do Sol que teve a estreia de Luise Wischerman como atriz, a Pituxa Alemã do Xou da Xuxa, e o Guarani, com Angélica. Mas como não tinha oportunidade no SBT, inventou um personagem para driblar a emissora em que era contratado e se apresentou com o pseudônimo de Adamo Angel um exotérico muito discreto, mas que lançaria um livro em breve.

Nem os artistas do elenco conheciam sua identidade, eles pensavam que podia ser Dias Gomes ou Paulo Coelho. O segredo durou até abril de 1997, e quando Silvio Santos descobriu, podia puni-lo, rescindir contrato, no entanto, o promoveu. Walcyr escreveu Fascinação para o SBT, que deu boa repercussão também.

A telenovela Xica da Silva estreou no dia 17 de setembro de 1996. A história se passa no século 18 quando o Brasil ainda era colônia de Portugal e tinha suas terras exploradas pela coroa portuguesa para extração de pedras preciosas, sobretudo de diamantes. Xica e sua mãe, Maria, são feitas escravas do Contratador dos Diamantes Felisberto Caldeira Brant, vivido pelo ator Reynaldo Gonzaga, e descobre que ele é seu pai. Como o homem já tinha família e não a reconhece como filha, Xica se vinga escondendo os diamantes que ele deveria entregar ao rei e, então, o homem e sua esposa são condenados a prisão em Portugal deixando seus filhos abandonados no Brasil sem nenhuma fonte de renda.

Xica e Maria são vendidas, Jacobino, o dono do bordel tinha interesse, ele, vivido po Altair Lima, também era o capitão-do-mato da região, ou seja, o encarregado de capturar pessoas escravizadas que fugiam, além de destruir os quilombos.

Xica chegou a ser vendida outras vezes e foi parar na casa de Violante Cabral, interpretada por Drica Moraes, que se tornou noiva do contratador João Fernandes de Oliveira, feito por Victor Wagner, que ao conhecer Xica, apaixona-se por ela e acaba com o noivado. A partir de então, a escrava conquista a liberdade e leva uma vida de privilégios e de muita perseguição liderada por Violante que pede a corte portuguesa um inquisidor com a finalidade de convence-lo a condenar sua rival a fogueira por acusação de bruxaria. Seu pedido foi atendido e ela ganha um companheiro de vilania, o Frei Expedito, interpretado por Dalton Vigh.

E a novela se resume basicamente a isso, Violante tentando incriminar Xica de alguma forma para que seja condenada e deixe o caminho livre para ela se casar com João Fernandes. Isso se arrastou por 11 meses, a novela acabou em 11 de agosto de 1997, essa perseguição constante foi recheada por cenas violentas e de apelo sexual. Aliás, Xica da Silva vai mais ou menos na linha da série Game Of Trones, não é para fracos, tem muitas cenas fortes de violência e nudez.

A Xica é obrigada a engolir um ovo cozido fervente, é estuprada, apedrejada com pedras, ovos e urina... E como ela sempre dava a volta por cima, Violante descontou sua frustração em sua mãe. Maria teve uma morte horrível ao ser condenada por assassinato e bruxaria, ela teve as pernas e braços atados, cada membro em um cavalo, e foi esquartejada quando os animais se assustaram com um disparo e correram cada um para um lado distinto. A personagem foi interpretada por Zezé Motta que voltou no último capítulo interpretando a Xica, em uma passagem de tempo, no casamento de sua filha Joana que foi interpretada por Taís Araújo mesmo.

Ou seja, mãe e filha voltaram a se encontrar como mãe e filha. Foi também uma forma de homenagear Zezé ao reviver a personagem que protagonizou no filme, ela foi a Xica da Silva no cinema, em 1976.

Apesar das perseguições que sofria, Xica também não ficava por baixo, ela cometia um monte de atrocidades. Por exemplo, mandou arrancar todos os dentes de uma escrava que tentou seduzir seu marido, esquartejou um escravo que era espião de Violante e serviu sua carne em uma feijoada que ofereceu para todos os moradores do Tijuco... Envenenou todos os rios, mananciais e poços do arraial para que, sem opção, toda a população implorasse pela única fonte de água pura que estava em sus propriedade... 

Por ciúmes de Clara, que era sua irmã por parte de pai, mandou cortar as orelhas da moça. E essa personagem também viveu um inferno, porque depois que seus pais foram levados presos a Portugal, ela foi violentada, teve um surto psicótico, passou a se esconder nas matas e a vagar sem rumo pelas ruas quase nua, foi esfaqueada, afogada... virou uma zumbi.

Era a primeira incursão de Adriane Galisteu no seu retorno ao ramo artístico depois da morte de Ayrton Senna. Quando ele sofreu o acidente em 1994, onde perdeu a vida, ela ficou um tempo sem aparecer e escreveu a sua história em um livro que fez muito sucesso, depois posou para a Playboy e finalmente assinou com a Rede Manchete para fazer nove capítulos. Sua personagem partiria para outros planos no dia que foi violentada, mas como se saiu bem e recebeu boas críticas, foi convidada para ficar até o final da novela e, então, só foi ladeira abaixo.

O diretor queria explorar na novela o sucesso da revista, mas ela se recusou a ficar nua em cena e acha que foi mantida até o final e passou por todas as torturas por castigo, mesmo pedindo para sair.

Essa foi a segunda novela de Giovanna Antonelli que interpretou a costureira Elvira. Ela trabalhou com Angélica, como uma das Angelicats, entre 1991 e 1992, até o programa ter as gravações transferidas para São Paulo. Em Xica da Silva, protagonizou muitas cenas sensuais e viveu um triangulo amoroso com José Maria, um homossexual enrustido com trejeitos afeminados, interpretado por Guilherme Piva, e Paulo, vivido por Déo Garcez, um escravo presentado por Xica para satisfazer o amigo e faz um filho com Elvira.

Já a própria Xica da Silva foi a segunda personagem de Taís Araújo, sua primeira telenovela tinha sido a anterior, Tocaia Grande, e foi poupada das cenas mais picantes até completar 18 anos. Exatamente no mesmo dia em que atingiu a maioridade teve uma cena de nudez liberada na novela.

Há quem diga que por falta desse apelo, a emissora recorreu a atriz italiana de filmes adultos, Cicciolina, para apimentar a trama. Ela fingia ser a princesa Ludovica, mas na verdade era uma cortesã que usou do falso título de nobreza para roubar os ricos da região, no entanto, as cenas foram ao ar a partir do dia 21 de julho de 1997, na reta final da novela e Taís Araújo já era maior de idade.

Além dos atores já citados, entre vários outros, estiveram presentes no elenco a Ângela Leal, Alexia Dechamps, Murilo Rosa, Marcos Breda, o cantor Eduardo Dussek, a cantora Leci Brandão, e a carnavalesca Dona Zica que fez uma participação especial.

O destino dos personagens, quem já conhecia a história sabia mais ou menos como seria, mas nem por isso o desfecho deixou de ser surpreendente e inusitado. Violante conseguiu incriminar Xica e o João Fernandes por envolvimento com bruxaria que é obrigado voltar a Portugal por ordem do rei, enquanto Xica foi presa e seria morta, mas a própria vilã fez uma proposta através de uma carta propondo retirar a queixa se ele se casasse com ela.

João Fernandes aceita, Violante retira a queixa, Xica é libertada, mas teve suas mucamas queimadas em praça pública por pura maldade da vilã que parte feliz para Portugal, afim de realizar seu tão sonhado matrimônio, no entanto, após a festa de casamento seu sonho vira um pesadelo. Ele se recusa a passar a noite de núpcias juntos e a abandona. Não sem antes deixar ordens explícitas de que nada lhe faltasse, mas que jamais lhe permitissem que pusesse os pés fora do suntuoso palácio e que ninguém lhe respondesse uma única palavra. As cenas foram gravadas no Palácio do Marques de Pombal, em Portugal.

João Fernandes consegue voltar uma vez mais ao Brasil para reencontrar Xica.

A abertura da novela causou polêmica ao utilizar imagens da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, que eram animadas e colocavam a atriz Taís Araújo no lugar de Nossa Senhora da Conceição. O tema de abertura era Xica Rainha, escrita por Marcus Viana e interpretada por Patrícia Amaral em conjunto com a Transfônica Orkestra.

A trilha sonora original foi toda composta por Marcus Viana, conta com 14 faixas e tem Tais Araújo na capa. A emissora investiu 6 milhões de dólares na produção da novela e construiu a cidade cenográfica de Arraial do Tijuco em Maricá, no Rio de Janeiro, tendo algumas cenas gravadas em Minas Gerais. E, apesar de ser uma das maiores telenovelas brasileiras de todos os tempos, sendo o último grande sucesso da Rede Manchete e ter alcançado uma boa audiência à época, teve média geral de 9 pontos.

a emissora investiu 6 milhões de dólares e construiu em Maricá no Rio de Janeiro a cidade cenográfica de Arraial do Tijuco. Algumas cenas foram gravadas em Minas Gerais e as últimas cenas de Violante em um castelo foram registradas no Palácio do Marques de Pombal em Portugal.


Curiosidades

Xica da Silva contou com a participação de alguns atores portugueses como António Marques, Lídia Franco, Rosa Castro André, e Anabela Teixeira, que foram convidados pelo diretor Walter Avancini.

Foi a última novela de Alexandre Lippiani que interpretou o padre Eurico. Ele faleceu durante a exibição da novela, em 24 de maio de 1997, vítima de um acidente de carro. Na novela, seu personagem se envolveu afetivamente com Eugênia, personagem de Andrea Avancini, retratada com distúrbios mentais, de quem ele cuidava, e como castigo foi emparedado pelo inquisidor. Depois, foi encontrado morto dentro do apertado espaço onde tinha sido preso, no entanto, o corpo não era seu, pois tinha sido resgatado por Xica e partido deixando uma carta de agradecimento. 

Xica da Silva foi reapresentada pelo SBT entre 28 de março a 9 de dezembro de 2005 e apresentou uma nova vinheta de abertura com a música Xica da Silva de Jorge Ben, produzida originalmente para a trilha do filme de 1976. A audiência foi melhor do que a apresentação original, ficou entre 15 e 18 pontos.

Xica da Silva passou em Portugal, Itália, Rússia, Bolívia, Porto Rico, Panamá, Paraguai, Guatemala, Chile, Angola, Venezuela, Equador, Honduras, Nicarágua, Argentina, Colômbia, Peru... Passou também nos Estados Unidos e fez tanto sucesso que, segundo The New York Post, foi a novela mais falada no país depois da série Dallas e dobrou a audiência do Telemundo.

Taís Araújo foi contratada pelo canal por um ano para promover a novela e participou de um reality show da emissora e fez uma participação especial na novela colombiana, Betty, a Feia. Na época ela foi eleita pela revista People espanhola como uma das 50 personalidades mais bonitas do mundo. Em República Dominicana a novela foi exibida quatro vezes e Taís Araújo foi recebida com honras de chefe de Estado ao visitar o país.

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