O cinema brasileiro foi quase extinto em 1990 com a chegada de Fernando Collor na presidência. Sobreviveu porque tivemos algumas poucas produções e em 1995 aconteceu a retomada do cinema nacional. Foi quando entrou em cartaz: Carlota Joaquina - Princesa do Brazil, O Quatrilho, que disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro, Menino Maluquinho - O Filme, e o filme da TV Colosso Supercolosso – A Gincana, além de Tieta do Agreste.
É claro que tivemos outros filmes, mas esses foram os que mais chamaram a atenção.
Em 1996, ainda estávamos nesse período de retomada do cinema nacional, e naquele ano tivemos três filmes baseados em histórias reais, sendo dois sobre o cangaço nordestino. Um deles é o Baile Perfumado a respeito da saga do libanês Benjamin Abrahão que foi o responsável pelas únicas imagens do cangaceiro Lampião. E o outro é Corisco & Dadá que conta a história de Corisco, conhecido como Diabo Loiro, e sua mulher, Dadá, raptada e violentada por ele aos 12 anos, mas que se integra ao bando dos cangaceiros contra as emboscadas do chefe da polícia volante, Zé Rufino.
E tivemos também Adágio ao Sol que mescla um triangulo amoroso, fictício, com uma fase turbulenta da história política do Brasil, o colapso da economia que era baseada na exportação do café e a revolução constitucionalista de 1932.
Tivemos outros seis filmes puramente fictícios. Um deles é O Sertão das Memórias que explora termos e figuras do Nordeste contando a história de Maria, uma reencarnação feminina de Jesus. E também: Terra Estrangeira sobre um homem que deseja viajar a Portugal na época em que o presidente Fernando Collor tinha confiscado a poupança de todo mundo e aceita a proposta de um estranho para levar um pacote em troca da passagem e se envolve na maior furada da sua vida. Um Céu de Estrelas que se passa todo dentro de uma casa, sobre uma cabeleireira ganha uma passagem para Miami, em um concurso, e vê sua chance de se livrar do marido violento. Como Nascem os Anjos tem tráfico, sequestro e muita tensão em situações imprevisíveis. E, Olhos de Vampa sobre a investigação de uma série de assassinatos de jovens mulheres, todas encontradas mortas em São Paulo, com um pêssego na boca, uma mordida nas nádegas e sem sangue no corpo.
Mas tivemos também a comédia Doces Poderes sobre conflitos éticos de uma jornalista em Brasília que sofre todo tipo de pressão e tentações para utilizar sua influência em campanhas políticas. E a adaptação da obra de José de Alencar, O Guarani, que ganhou bastante destaque e muitas críticas negativas por uma série de acusações à diretora. Você pode conferir os detalhes no post a respeito do filme aqui no blogue.
Outras duas produções que ganharam bastante destaque foram: Quem Matou Pixote? e Cassiopeia.
Lançado mundialmente em agosto de 1996, no Festival Internacional de Cinema de Montreal, no Canadá, Quem Matou Pixote? só chegou nos cinemas do Brasil em 1 de novembro do mesmo ano, pela Columbia Tristar Pictures. Trata-se da reconstrução dramática da vida turbulenta e da morte prematura do ator infantil Fernando Ramos da Silva que protagonizou o aclamadíssimo Pixote - A Lei Do Mais Fraco, de 1980.
Esse filme conta a história de um garoto que é recrutado por terceiros para realizar assaltos e transportar drogas após fugir de um reformatório para menores infratores e se tornou um sucesso de crítica, tanto nacionalmente quanto internacionalmente, com diversos críticos estrangeiros colocando a produção entre um dos dez melhores filmes realizados naquele ano. Foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de melhor filme estrangeiro e, em 2015, entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Mas, Quem Matou Pixote?, apesar de ser indicado a vários prêmios e ganhar alguns deles, não cativou a crítica especializada, que, elogiou a performance do elenco, mas não se sentiu comovida com a montagem.
A história segue a jornada de Fernando Ramos da Silva, interpretado por Cassiano Carneiro, um jovem de origem humilde em Diadema, na periferia de São Paulo, que alcança fama internacional ao protagonizar o filme Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco, aos 12 anos. O foco do filme é sobre o que aconteceu depois desse sucesso. Fernando ganhou dinheiro, reconhecimento, e sonhava em continuar sua carreira de ator para proporcionar uma vida melhor para sua família.
Em 1981, Fernando esteve no filme Eles Não Usam Black –Tie, e foi escolhido para integrar o elenco da novela O Amor É Nosso, da TV Globo, como o personagem Pingo. Mas como tinha dificuldades para decorar os textos, não durou muito e foi demitido. Em 1983, ele esteve no filme Gabriela com Sônia Braga, e depois disso não conseguiu mais papeis. Quando o dinheiro acabou, entrou na vida bandida por influência dos seus irmãos e foi morto, aos 19 anos, por policiais militares do Tático Móvel do 6º Batalhão da Polícia Militar de São Bernardo do Campo num tiroteio após supostamente ter participado de mais um assalto, desta vez contra uma empresa no bairro de Piraporinha, em Diadema.
A família contestou o fato e as testemunhas disseram tê-lo visto de short, sem camisa e desarmado. Três policiais foram demitidos da Polícia Militar por fraude processual. É uma triste história.
O outro filme de 1996 que merece muito a atenção é Cassiopeia, que estreou nos cinemas do Brasil em fevereiro daquele ano. Trata-se de uma animação totalmente digital, de Clóvis Vieira. O filme conta a história do planeta fictício Ateneia, localizado na constelação real de Cassiopeia, que um dia é atacado por invasores do espaço que começam a sugar sua energia vital. Um sinal de socorro é enviado pela astrônoma local, Liza, e recebido por quatro heróis que viajam através da galáxia para salvar o planeta.
O filme competiu com Toy Story da Disney/Pixar pelo título de primeiro longa animado totalmente feito em CGI do mundo. Cassiopeia foi lançado quase três meses depois de Toy Story, mas os estadunidenses não foram muito fieis na execução do longa, eles usaram moldes de argila que foram escaneados digitalmente, o que tiraria Toy Story da categoria 100% digital. Já a produção brasileira foi totalmente realizada em CGI, sem nenhum escaneamento exterior de imagens ou vetorização de modelos reais.
Os produtores chegaram a acusar a Disney de tentativa de sabotagem e planejaram furtar CDs com o trabalho do filme para atrasar o lançamento. Em 2017, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) realizou uma pesquisa para nomear as cem melhores animações brasileiras da história e Cassiopeia ocupou a décima quarta posição na lista final.
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