Em 1996 estreou um dos programas mais errados que a Globo já fez. Deu certo comercialmente, deu audiência, mas foi uma produção muito irresponsável na luta que a emissora travava pela liderança do ibope nas tardes de domingo. Naquela época o Domingo Legal, no SBT, estava passando pela sua melhor fase e a Globo resolveu contra atacar com muita pirotcnia e gente sem roupa. Gente jovem... adolescentes para ser mais exato.
Trata-se do programa Ponto a Ponto apresentado por Danielle Winits, Ana Furtado e Marcio Garcia. Ele tinha 26 anos na época, estava há 2 anos na Globo, depois de ter passado um ano na MTV. Ou seja, estreou como apresentador em 1993, na MTV, e em 1994 fez sua primeira telenovela, Tropicaliente, no horário das 18h, na Globo. Depois atuou em um episódio do Você Decide, na novela Cara & Coroa e na novela Anjo de Mim.
Ana Furtado tinha 22 anos, era recém contratada da Globo, e antes de apresentar o Ponto a Ponto ela tinha feito a abertura da novela Explode Coração, em 1995, e uma pequena participação na novela Cara & Coroa. Já Danielle Winits, tinha mais tempo de casa do que os dois. Na época ela estava com 22 anos, e estava há 3 anos na emissora. Sua estreia foi na minissérie Sex Appeal, em 1993, como a Eveline da Silva. Depois atuou em Olho no Olho, fez uma participação em A Próxima Vítima, gravou um episódio do Você Decide e passou rapidamente pela Malhação, além de atuar em Cara & Coroa.
Na época a Globo já tinha inaugurado o PROJAC, então o programa já devia ser gravado no local e parecia que a Globo estava nadando em dinheiro, porque cada episódio custava entre 130 mil a 200 mil reais. Era uma produção enorme. O cenário tinha piscina, usava-se muita água em muitos jogos, os participantes e a plateia usavam uniformes e tinha banda ao vivo. Sem falar dos prêmios para os vencedores.
O programa estreou no dia 31 de março de 1996, na TV Globo. A ideia não era original, tratava-se de uma versão do programa italiano Il Grande Gioco Dell'oca, que teve uma versão espanhola também chamada El Gran Juego De La Oca. Traduzindo para o português seria O Grande Jogo do Ganso. Era exibido nas tardes de domingo com uma hora e meia de duração, apresentado por Ana Furtado, Danielle Winits e Márcio Garcia.
Em cada episódio, quatro casais de estudantes acompanhados de suas respectivas torcidas representavam suas escolas com o objetivo de acumular o maior número de pontos. Em cada bloco eles realizavam provas de acordo com um sorteio feito através de envelopes que tinham que escolher das mãos de hum rapaz que descia do teto, de cabeça para baixo. A dupla que conseguisse acumular 30 pontos ganhava um carro zero quilômetro, mesmo que não tivessem carteira de habilitação. Lembremos que era uma competição entre escolas, então, os alunos eram menores de idade.
O cenário tinha cerca de 1.000m2 com uma piscina no centro. Havia ainda uma ponte, escorregadores e uma fictícia oficina mecânica. Dez moças e dez rapazes, entre os quais três dançarinos, davam assistência às equipes, além de ajudar na animação da plateia, que era devidamente caracterizada e divida em cores que correspondiam às torcidas de cada dupla. Para as tarefas mais difíceis, os competidores contavam ainda com o auxílio de três alpinistas e dois mergulhadores.
Os desafios eram diversos, os competidores passavam por provas de habilidade, de força, de estratégia, e de coragem, pois precisavam realizar desafios dentro da água, pendurados nas alturas, mexer com fogo, enfrentar animais e usar ferramentas cortantes, entre outras.
As provas tinham que ser realizadas dentro de um certo tempo e valiam pontos que eram convertidos em dinheiro para as equipes. A piscina era super bem aproveitada, era usada para várias provas. Os participantes usavam equipamentos de proteção, eram assistidos por profissionais de mergulho e escalada, mas corriam riscos reais porque tinham que manusear machados, marretas, e outras ferramentas que não faziam parte do dia a dia deles.
Por sorte, entre lesionados e feridos, todos saíram bem. A equipe de efeitos especiais da Globo simulava antes as provas em que a própria emissora considerava que havia um alto nível de dificuldade, como tentativas de escapar de águas muito quentes e de explosões de tanques de combustível, mas alguns imprevistos aconteceram, como uma vez em que uma participante passou por várias jaulas com ratos, sapos e cobras para conseguir escapar do lugar, mas esqueceu a porta da cabine aberta e os bichinhos sairam pelo cenário, para desespero de alguns e diversão de outros.
E não era só pirotcnia e desafio de pânico que consistiam as provas, alguma delas tinham uma pitada de sadismo também. Por exemplo, em alguns desafios os participantes passavam por depilação. Um apelo que foi bem explorado anos mais tarde pelo Luciano Huck no programa H, na Band. Tinha uma prova em que os participantes não podiam alterar os batimentos cardiácos enquanto assitiam a um strep-tease. Esse apelo foi bem usado pelo Gugu no Domingo Legal.
Aliás, várias provas do Ponto a Ponto o Gugu adaptou, ou já tinha explorado em seu programa, como a troca de roupa dos casais dentro da água. No Ponto a Ponto um casal se vestia em uma cama no meio do palco com os olhos vendados, em outra os participantes tinham que se vestir dentro da piscina...
Além das provas em si que já eram bastante impactantes, o programa tinha muitos corpichos expostos também. Além dos participantes que tinham que fazer as provas quase sempre sem roupa, haviam várias moças e rapazes objetificados, espalhados pelo cenário. Isso era uma prática muito comum. Vários programas, inclusive a Xuxa, contava com jovens usando pouco figurino e trajes provocativos. Sem falar nos próprios apresentadores que estavam na flor da idade e no auge das suas formas físicas. Tantos apelos e investimento deu certo porque o programa superava a audiência do Domingo Legal. A média era de 19 pontos em São Paulo, contra 14 do SBT.
Dentro dos estúdios nunca aconteceu nem um acidente, mas infelizmente fora deles sim. Em uma das provas mais radicais do programa os participantes vestiam uma roupa impermeável para empurar algumas bolas de fogo através de uma rampa e no mês de maio do mesmo ano, dois irmãos, um de 15 e outro de 17 anos, tentaram reproduzir a brincadeira em casa sem nenhum equipamento de proteção e perderam a vida.
Eles tinham usado álcool para produzir o fogo e depois provaram outra substância química que explodiu. Foram conduzidos para o Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre, mas não resistiram aos ferimentos. Um deputado pediu à Câmara para que a Procuradoria Geral da República investigasse a responsabilidade da Globo no incidente. O Boni respondeu que os concorrentes da atração eram protegidos de maneira adequada e assinavam um termo que cobriam acidentes e até seguro de vida.
Por essa razão, ou não, a direção da emissora decidiu cancelar o programa na seu décimo nono episódio que foi apresentado no dia 4 de agosto do mesmo ano, em 1996.
Para assistir a este conteúdo, clique na imagem abaixo:





Nenhum comentário:
Postar um comentário