No começo dos anos 90 quando a Globo se gabava por ter seu sinal sintonizado em 7 de cada 10 televisores ligados, uma emissora de televisão e uma produtora do Reino Unido fizeram um documentário sobre sua influência na política e na formação de opinião no Brasil e, adivinha... Roberto Marinho tentou impedir que o material fosse ao ar, mas foi, e mais, distribuíram para todo o mundo e hoje está no Youtube.
O documentário foi produzido pelo Channel 4, do Reino Unido, em parceria com a produtora independente Large Door, com o título: Muito Além do Cidadão Kane. Foi transmitido no Reino Unido em setembro de 1993, com a Globo tentando impedir a transmissão com apelos a justiça britânica, alegando uso não autorizado de suas imagens. Conseguiu atrasar a transmissão, mas impedir não. O Channel 4 precisou adiar a estreia por cerca de um ano até vencer a disputa com base no direito de uso para fins de crítica.
A Globo tentou adquirir o material, provavelmente para engaveta-lo, mas o mesmo foi distribuido en fitas VHS a preço de custo, ajudando o documentário a chegar ilegalmente ao Brasil. A Record pagou 20 mil dólares na época, mas nunca exibiu o conteúdo.
E por que esse título, quem é o cidadão Kane? Charles Foster Kane é um personagem de um filme que explora sua ascensão e queda. Ele nasce pobre, mas herda uma grande fortuna ainda na infância e quando adulto assume o controle de um pequeno jornal e o transforma em um império de comunicação que o permite manipular informações e usa o sensacionalismo para moldar a opinião pública e buscar poderes políticos. Apesar de ser uma ficção, a história foi baseada na vida do bilionário William Randolph Hearst que não gostou nada do que viu e tentou destruir o filme.
Então, o documentário britânico, Muito Além do Cidadão Kane, faz alusão a ele para comparar o poder de influência que Roberto Marinho, o fundador da Rede Globo, tinha na época. E a história é bem parecida, pois, o Roberto Marinho construiu um império midiático por meio de manipulação, exerceu grande influência na política e assim como o verdadeiro milionário em quem o filme foi inspirado, tentou impedir a veiculação do documentário sobre ele.
O Roberto Marinho nasceu em 1904, e quando fundou a Globo já tinha 61 anos. Na época do lançamento do documentário a emissora era a quarta maior TV do mundo, hoje é a segunda, fica atrás somente da ABC dos Estados Unidos. Desde o início de Muito Além do Cidadão Kane as críticas são bem pesadas e atingem todas as esferas brasileiras, sobretudo a enorme desigualdade social do nosso país. Um exemplo eram as mensagens de otimismo e fé que Xuxa passava todo dia em seu programa, enquanto a maioria da população vivia na miséria.
O documentário fala sobre a imigração no Brasil, dos diversos povos que se instalaram no país. Aborda a taxa de analfabetismo que estava em 25% da população... Hoje em dia, em 2026, essa taxa é de 4,9%. Entra no tema da concorrência das emissoras que, apesar de existir mais de 200 em todo o país, só a Band, Manchete e SBT faziam frente à Globo que dominava totalmente a audiência e já produzia 95% do conteúdo apresentado no horário nobre.
Nessa parte o documentário fala sobre a distribuição dos canais que o governo fazia diretamente para seus amigos, que a Globo cancelou o programa do Chacrinha por 10 anos porque era muito anárquico para a ditadura e entra no espetáculo de domingo com a guerra de audiência e faz duras críticas, a mais leve é chamar as Olimpíadas do Faustão de bobocas. Uma das críticas foi sobre o Silvio Santos enriquecer com o prejuízo dos clientes do Baú da Felicidade que não conseguiam pagar todas as prestações do carnê.
As pessoas que estavam com as prestações em dia podiam ganhar uma casa no sorteio do programa e se completassem as 12 parcelas e não fossem sorteadas para ir brincar na televisão, recebiam o dinheiro investido em mercadorias das lojas do baú. Mas se interrompessem as prestações, perdiam todo o dinheiro investido. Fora iso, teve o fato de algumas vezes Silvio não realizar o sonho das pessoas que iam na Porta da Esperança só pela audiência, para continuar a história em outro episódio. E o Fantástico que era muito mais show do que notícias também teve seu momento de críticas.
Nem a publicidade escapou. Agências brasileiras ganharam prêmios internacionais, os comerciais eram de altíssima qualidade, mas grande parte do público, a maioria, consumia só imagens porque não tinha poder aquisitivo para comprar os produtos, ou fazer uso dos serviços anunciados na televisão.
Boa parte do documentário aborda a ditadura militar iniciada em 1964. A Globo entrou no ar um ano depois como televisão, mas já existia como jornal impresso e Roberto Marinho deu total apoio ao golpe, então os generais gostavam dele. Mas mesmo com o investimento de uma empresa estrangeira, o que não é permitido no Brasil, a emissora foi super mal nos primeiros 8 meses e conseguiu chamar bastante atenção do público cobrindo ao vivo uma enchente no Rio de Janeiro.
Na segunda parte do documentário é abordada a influência da ditadura e o apoio da Globo de forma escancarada. Por exemplo, se a ditadura proibisse algumas músicas de alguns cantores, esses cantores eram proibidos de pisar na Globo. E essa fase foi tão absurda que não se limitou as torturas, foi além, teve luta armada e atentados, inclusive das próprias forças armadas, em um dos atos eles colocaram bombas em um grande evento para culpar os militantes de esquerda, mas os artefatos explodiram na hora errada e feriram os próprios terroristas.
A ditadura impedia qualquer notícia que falasse mal do governo ou que expusesse os problemas do país, então a Globo contribuiu com as novelas, maquiando a pobreza, encobrindo a realidade com o lúdico de suas produções. E o documentário explica porque as concessões da Tupi foram dadas para a Manchete e para o SBT, a razão é bem simples, eles não representavam ameaças ao governo, já o Grupo Abril que estava na disputa, como tinha feito algumas matérias criticando a ditadura na revista Veja, poderia usar a televisão para fazer campanha contra o regime ditatorial e ficou de fora.
A Globo não contava somente com o canal de televisão, além do jornal impresso, tinha a Editora Globo, Globo Vídeo e a Som Livre onde apenas a Xuxa era responsável por 30% do lucro, e os outros 70% eram a soma de vários álbuns musicais, incluindo os das novelas.
A terceira parte começa expondo que a Globo não se posiciona de direita ou esquerda, ela apoia quem acha que vai ganhar a eleição, ou quem já está no poder, e é bem volátil, se o governo perder o apoio da população ela também passa a ataca-lo. Ou seja, a emissora se adapta ao momento sem se preocupar se está fazendo bem ou não, a única preocupação é a sua sobrevivência.
A Globo obedecia fielmente as instruções da ditadura, mas em muitas ocasiões ela agiu por conta própria. As notícias apresentadas no Jornal Nacional eram distorcidas, por exemplo, anunciavam a taxa de inflação, mas a associavam com o lucro na caderneta de poupança. Outra forma de manipulação era, ou continua sendo, apresentar uma notícia feliz e alegre, logo depois de uma notícia ruim para que o telespectador não tenha tempo de assimilar o lado negativo da realidade.
A última parte do documentário aborda as vezes em que a Globo tentou, e conseguiu em algumas ocasiões, intervir diretamente nas eleições. O plano falho foi quando tentaram persuadir a população que Leonel Brizola perderia a eleição para governador do Rio de Janeiro e divulgaram pesquisas falsas, mas os eleitores não acreditaram e o elegeram assim mesmo. E a história bem-sucedida foi a manipulação do público através da edição do último debate entre Color e Lula e da pesquisa que dava vitória ao candidato que apoiavam.
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