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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O que levo da Espanha.

E lá se foram 3 meses desde que desembarquei em Madrid, a capital da Espanha.

Viajar sempre é uma grande experiência e contribui para prolongar a percepção do tempo, renova a alma e com certeza faz muito bem ao cérebro, pois nos tira da zona de conforto e exige mais dos neurônios para buscarmos comida e procurarmos um abrigo seguro. Acredito que tenha ganhado alguns anos a mais de vida, pois essa experiência fora do Brasil foi como ter renascido. Afinal, tive que aprender uma nova língua e buscar pontos de referências todos os dias para não me perder na cidade, e ainda me sinto como uma criança balbuciando as primeiras palavras.

Coincidiu com minhas primeiras semanas em Barcelona a polêmica do artista nu, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Fiquei chocado com a reação das pessoas e o quanto a grande maioria é suscetível às críticas daqueles que ocupam um posto de destaque, seja na política, ou em outro meio que lhe dê visibilidade. O que mais me chamou a atenção nesse fato é o quanto as pessoas, que criticaram negativamente a performance do ator, tem problemas com a sua sexualidade.

Parto da naturalidade com que um héterossexual se comporta diante da homossexualidade se ele é convicto da sua inclinação sexual. Sempre ouvi que as pessoas que se sentem incomodadas, ou que desaprovam, um tipo de relacionamento distinto do seu é porque se sentem inseguras dentro do modelo que se encontram, como se o diferente fosse um risco e que a qualquer momento isso pudesse lhe afetar, então, nega e despreza veementemente a outra forma de amar. Em outras palavras, é coisa de gente mal resolvida, é como se eu ficasse incomodado pela felicidade do meu colega em seu trabalho porque a profissão que eu me propuz a exercer não me completasse, e isso não tem a ver com salário ou status, é falta de identificação mesmo.

Muitas pessoas justificaram seus ataques ao artista dizendo que o problema não era ele estar nu, mas a presença de uma criança no ambiente. Ou melhor, de uma criança tê-lo tocado.

Quando cursei Filosofia, surgiu um questionamento na matéria de Psicologia de como os pais devem se comportar diante dos filhos em relação a nudez. Segundo a professora, se os adultos não tem vergonha do seu corpo e agem naturalmente quando estão despidos, a reação da criança será tão natural quanto. No entanto, se a criança perceber algum desconforto (timidez, vergonha, ou algo que o adulto queira esconder), ela notará que aquela é uma situação incomum e todos nós sabemos o quanto o proibido é atrativo.

Eu tive vontade de gravar inúmeras cenas de famílias que agiam naturalmente nas praias de Barcelona para publicar nas redes sociais e dizer, olha, vocês estão apredrejando um artista que estava em um local fechado e com indicações de que sua performance era para gente grande, mas aqui na Espanha os adultos ficam nus na praia para se trocar. Vi pai se desnudar na frente da filha, mãe se desnudar na frente do filho. E ainda, um homem nu a brincar de jogar disco com uma mulher, possivelmente sua esposa que estava vestida, diante de outra mulher que podia ser sua mãe ou sogra, também vestida, e o mesmo homem pegou no colo uma criança que não tinha mais do que 4 anos para consolá-la quando ela chorava.

E ainda, a praia Mar Bella, de naturistmo, tem um acesso super fácil, fica às margens de uma via por onde passa muita gente de todas as idades e famílias passeiam pela areia com seus filhos sem se importar com os que estão tomando sol nus, como se o evento do dia fosse levar os filhos para ver gente pelada.

As crianças não tem atração sexual por adultos. Os filhos que tomam banho com os pais não se tornam adultos depravados... Logo, os ataques ao artista do MAM não foram foram por causa da criança, foram por causa do artista. Ou melhor, não foram por causa do artista, foram por causa da incapacidade, da falta de coragem, que cada um tem em ficar nu diante de outras pessoas, ou até quando está sozinho.

Da mesma forma que os pais que levam seus filhos nas praias da Espanha sabem o que eles verão nas areias, quem melhor do que a mãe da criança que estava no museu para julgar se deveria ou não ter deixado a menina tocar NO TORNOZELO do artista?

Sejamos menos juizes da vida alheia e cuidemos mais da nossa própria.

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